Tão longe, tão perto




Sonho com ela todos os dias. É um ser único e exclusivo para mim. Uma diva, pedaço de minha vida, musa de minhas escritas, meu sonho, meu pesadelo, meu remédio e meu veneno. "Tão longe, tão perto" foi minha declaração de amor para ela. "Cores Humanas" são outras histórias sob os auspicios de tão formosa e eterna musa.

Para quem quiser espiar:  http://coreshumanas.zip.net



 Escrito por Mauro Cassane às 14h07
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A CARTA NUNCA ENVIADA

São Paulo, 12 de outubro de 2005

 

 

Pequeninha, meu amor,

 

 

Percebes como o tempo é injusto? Sim, injusto, pois passa lento quando queremos velocidade, e corre veloz quando o que mais queremos é que pare os ponteiros. Eu pensei em parar os ponteiros em diversos momentos. Queria parar quando te vi pela primeira vez, assim, toda solta, com seus cabelos flutuando, bem na minha frente, espevitada e meiga, inteligente e ingênua. Um anjo vindo do céu Norte e que estava ali, bem na minha frente, para mudar minha vida. Sim, Pequeninha, queria parar o tempo naquele momento. E acho até que parei, acho que sim, consegui parar por uns instantes.

 

Nossa história foi uma das coisas mais lindas que vivi, nunca pensei que pudesse eu, com o coração tão cimentado, mergulhar num grande e louco amor. Sério. Tudo foi tão intenso, que me pegou de surpresa. Não sei como você foi amada antes, muito embora tenha me dito algumas vezes sobre seus amores, mas posso falar por mim, e meu amor por você foi algo inusitado em minha existência. Nunca houve algo tão profundo e verdadeiro. Confesso que até achava piegas quando ouvia histórias de amor, de homens que atravessavam desertos ou oceanos, em busca de seu amor. Agora acho isso tudo muito normal. Acredito piamente.

 

Depois de te amar, me surpreendo comigo mesmo. Nunca antes havia prestado atenção nas letras das músicas de Roberto Carlos. Ora, veja isso, justo eu, um ativista de esquerdas no tempos brutos da doentia ditadura, fã de carteirinha de Geraldo Vandré, e agora prestando atenção, ainda que disfarçadamente, nas letras das canções de Roberto. “Debaixo dos caracóis de seus cabelos”. Essa é uma que mais gosto e lembro de ti. Mas tudo bem, Roberto fez lindas canções e essa, em particular, foi uma homenagem poética a Caetano Veloso, que também curto. “Oh, neguinha, deixa eu cuidar de você”. Ou “você e meu caminho, meu vinho, meu vício desde o início, estava você...”. Lembra dessa? Cantei pra ti na areia da praia.

 

É, Pequeninha, eu ainda te amo. Ainda ouço canções de amor (brasileiras, portuguesas, italianas, francesas e americanas) e penso em você com ternura, com saudade e carinho. Não posso sequer rever o filme “O Carteiro e o Poeta” que não conseguiria conter as lágrimas. E procuro não ouvir Ben Harper nem Lauren Hill. Tenho toda coleção do Émerson Nogueira, mas ficarão todos guardados. Não posso ouvir também aquelas canções. Lembro você toda de preto, com aquele “vestidinho indefectível”, tão linda, tão doce, tão suave na noite bêbada com a brisa selvagem da maresia. Você perdeu o brinco na areia, mas eu ganhei um beijo demorado ali mesmo.

 

Eu te amo sim, mesmo sabendo que não me amas mais como um dia me disse que amou. Não só me disse, creio que demonstrou isso. É que agora, tão longe, e alheia a mim, parece que nunca sentiu nada por mim. Mas meu pensamento está tão perto de ti todos os dias, e principalmente nos sonhos, que parece que te toco a face como fazia tanto a cada beijo que te dava. É muito duro ficar longe de ti, meu amor, muito duro. Mas essa é a vida. Eu sei.

 

Você sempre me disse, pelo menos quando ainda dizia algo pra mim, para eu ficar bem. Nunca te respondi, mas realmente não tenho como ficar bem se estou longe de meu amor. Se estou distante da pessoa que gostaria que fosse minha mulher, minha vida, minha tudo. Mas nem tudo é como a gente quer. Já me disseram isso. Se você estivesse agora mesmo comigo, ao meu lado, e eu iria te preparar um chocolate bem quente, porque está esfriando.

 



 Escrito por Mauro Cassane às 23h45
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continua...

Eu sei que não se morre por amor, mas o coração padece de maneira impressionante quando se sofre de saudade e vontade de estar ao lado da pessoa amada. Se eu não te amasse, ou fosse apenas fogo de palha, estaria mais tranqüilo e feliz pois há tantas garotas por aí. Ficaria bem, como você mesmo me pediu para ficar tantas vezes. Mas não tenho como ficar bem. Desculpe. Porém, fique tranqüila, vou lutar sempre para ficar bem, já que é isso que você quer. Queria mesmo que esse “ficar bem” implicasse ficar com você. Seria mais que perfeito.

 

É tão difícil construir um grande amor, tão duro acreditar nele, mais complicado ainda sobreviver com ele. Mas parece que é tão fácil destruí-lo. Como se faz isso? Eu até que tentei diversas vezes. Sério mesmo. Fiz exercícios diários. Acordava e me dizia “eu não a amo. Era tudo lorota. Eu apenas era apaixonado por ela”. Fiz isso diversas vezes. Outras tantas procurei me interessar por outras garotas. Mas em nenhuma delas tive êxito. Não entendo porque diabos meu coração insiste em não te esquecer. Não entendo muito de amor. Desculpe até insistir nesse lance de lhe dizer reiteradas vezes “eu te amo”. Deve ser chato pra ti ler essas coisas minhas. Seria muito bom se você me amasse. Acho que você ficaria feliz da vida em saber que um homem te ama tanto. Mas deve mesmo ser chato ouvir ou ler de alguém que a gente não ama a frase “eu te amo”. Desculpe.

 

Com o tempo, não sei quantificar quanto tempo, acho que esse amor vai esfriar. Mas não vai morrer, porém, frio, acho que não vou mais te dizer “eu te amo”. Apenas sentiria algo, mas ficaria na minha. O problema é que, a despeito da distância e de tanto tempo, e até de sua completa ausência em palavras e tudo mais, esse danado de meu amor por ti ainda não esfriou sequer um grauzinho. Mas tenho esperança que ele um dia há de se tocar que está gastando energia em vão. O bom é amar quem ama a gente, não é assim? Você mesma deve saber disso melhor que eu. É ruim amar quem não nos ama. E eu queria até tentar te conquistar. Mas nem sei como. A gente tenta conquistar quem, ao menos, conversa com a gente de vez em quando. Mas nem isso. Você parece que está em outro planeta, ou outra dimensão. Chega até a falar com estranhos, mas não dirige a palavra a mim. Que pena, que tristeza. Não tenho chance alguma de te conquistar assim.

 

Minha chance já passou e eu não soube aproveitar. Muito embora hoje acredite que, se tivesse aproveitado, você não deixaria de fazer o que fez. Cedo ou tarde iria fazer. Melhor assim. Mas vou torcer sempre por ti. Juro mesmo. Sou seu maior fã e o torcedor número um. Seja lá onde você for, por onde andar, e o que estiver fazendo, eu vou torcer para tudo dar certo para você. Queria muito saber de ti, se está bem, se está se alimentando direito, se está cuidando de seu colesterol e de sua renite alérgica, e até tentei contato, mas foi tudo em vão. Me resta fazer o que estou fazendo agora, escrever uma carta ao vento, que é seu pai, para ver se uma hora ela chega em ti.

 

E se chegar, meu amor, saiba que aqui, nesta terra, tem um homem que te ama demasiadamente. Que vai te amar para sempre. Dizem por aí que o amor acaba, mas o meu é danado demais. Não acabou nem mesmo com minhas tentativas de matá-lo em minhas noites de solidão e desespero. Hoje aprendi a conviver com ele. De tão grande que é, o bicho me faz bem muitas vezes.

 



 Escrito por Mauro Cassane às 23h44
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continua...

Espero que você esteja feliz. Na verdade sei que está feliz. Eu não seria hipócrita e dizer que estou feliz. Não estou. Mas também não sofro mais como sofri por tanto tempo. Procuro entender que cada ser humano tem seu jeito muito peculiar. Não consegui destruir meu amor por você, e não vou mais tentar fazer isso. Vou deixar o tempo e o destino cuidar disso. É pouco provável, mas talvez você volte pra mim. O que importa agora é que me tornei uma pessoa melhor ao te amar tanto. Sim, me tornei um homem melhor. Sou um sujeito que sabe a importância de um grande amor, que entende o que é sentir saudade de verdade e que compreende agora o significado da lealdade e fidelidade a quem a gente quer com amor.

 

Eu não tenho nada a reclamar. Nada mesmo. Seria perfeito se você estivesse comigo. Mas não está. E se não está, de tão boa que você é, é por que você deve saber que há outra coisa melhor a fazer do que ficar ao meu lado. Eu te compreendo, minha amada. A gente não escolhe quem amar, e muito menos podemos escolher quem vai nos amar. Hoje me basta que você saiba que te amo.

 

Um grande beijo pra ti, minha amada imortal. Nunca na vida vou te esquecer, jamais vou virar as costas pra ti e nunca deixarei de responder um chamado seu. Não sou seu escravo, muito menos um bobo, isso é simplesmente amor. Há uma cena que todos os dias me vem à lembrança: aquela que, bêbada de champane, você pulou em meu pescoço, com o carro em movimento, e me beijou na avenida com sede de amor e sexo.

 

Te amo Pequeninha, e acho que sempre vou te amar.

 

 

 

 

fim         

 



 Escrito por Mauro Cassane às 23h43
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Uma breve história de amor

 

Mary Chriss Bleez teve muitas despedidas. Nasceu no Rio de Janeiro e por lá ficou uma pequena parte de sua infância. Seu pai era negociante, viajava de cidade em cidade. Certo dia chegou a hora de partir de novo, sua primeira partida. Largou os pequenos amigos cariocas, fizeram uma festinha de despedida, e a família se mudou para a capital do Brasil. Se instalaram bem perto do planalto central. Por lá ficaram mais um período. Mary Bleez não gostava do Chriss e ficou apenas Mary Bleez. Em Brasília já era uma garotinha e muito rápido fez um grupo ainda maior de amigos. Mas também partiu. Não houve festa. Foi para outras paragens. Chegava e partia, e assim desenvolveu uma técnica especial para fazer amigos bem rápido e não guardar tanta tristeza ao se despedir. Acostumara-se a se apresentar e a dizer adeus.

Muito cedo Mary partiu de casa. Foi pra longe, no exterior. Seu pai ficou orgulhoso. No aeroporto fizeram uma comitiva. Se abraçaram e ela seguiu sozinha. Como uma camaleoa se adaptava rapidamente às mais diversas situações. Foi criada assim. Há os ciganos, há os nômades, e há aqueles que  gostam de chegar e partir. Sempre viveu cercada de muitos amigos. Onde chegava, em pouco tempo, já se sentia em casa. Como se sua terra fosse ali mesmo. Mary Bleez era uma genuína cidadã do mundo. Bonita que era, e dona de um jeito encantador e carisma cativante, fez pizzas, entregou jornal e trabalhou no comércio para ganhar a vida em suas paradas por aí. Dois minutos de conversa com Mary Blizz já eram suficientes para se encantar com ela e nunca mais esquecê-la.

Por conta de suas idas e vindas, desenvolveu um senso muito prático com as coisas da vida. Particularmente com as do coração. Sabia amar como ninguém, mas como ninguém também sabia olvidar sem muitas dores ou nostalgia. Tinha um impressionante domínio de seus sentimentos, a ponto de administrar sua intensidade à sua conveniência e sabor. Acostumara-se a esquecer e a recomeçar vida nova em lugar novo. Se renovava sempre. Incrível. E como era muito querida, carismática e sociável, além de possuir beleza singular, sempre fora bem-vinda em todas as suas paragens. Sempre rodeada de amigos. E sempre deixava saudade e corações apertados em suas despedidas.

Certa vez, porém, em uma de suas muitas andanças, chegou a um novo lugar. E Mary conheceu W. K., um homem com coração de garoto. Mary acabara de chegar e ainda estava no seu intrincado processo de adaptação. W. K. se encantou com ela, como já era muito comum acontecer. Mary, a despeito de ainda ser bem jovem, estava bem vacinada com esses encantamentos dos homens por ela. Era bem experiente com isso e sabia exatamente como lidar com tais situações. Quis o destino que Mary e W. andassem juntos por uns meses. E um dia foram a uma cachoeira. W. a viu andando com os pés na água e a cachoeira ao fundo e ela o tocou, com a ponto do dedão do pé. Ele sentiu uma pontada funda no coração. Sabia que não podia amar uma mulher assim. É que ele conhecia, ainda que resumidamente, a história dela.

Um dia eles subiram uma grande montanha para ver o pôr do sol, e se perderam, mas ficaram sentados no cume até o sol sumir do lado oposto. Não viram o sol se pondo, como queriam, mas ele a abraçou carinhosamente, e com respeito, ficaram horas conversando. Ela não gostou muito desse abraço, ficou ressabiada, mas não se sentiu ameaçada, e sabia que a situação estava sob controle, e deixou assim. Ficaram muitas horas ali, no alto, conversando sobre amores, a vida e tudo mais. W. experimentou naquele momento uma sensação nova e assustadora ao estar ali com aquela garota. Uma revolução se iniciava no coração daquele homem e ele estava no limiar de provar algo completamente novo em sua vida. 



 Escrito por Mauro Cassane às 18h52
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continuação...

O tempo passou. W. tomou coragem e escreveu uma longa carta a Mary. Expôs ali, embora timidamente, e cheio de medos, seu sentimento por ela. Não empregou a palavra “amor”, mas deixou claro que o que ele sentia era muito forte. Mary leu a carta, mostrou para um amigo, e comentaram sobre mais um coração que Mary encantava. E ela escreveu para W. uma pequena missiva apenas rechaçando, polidamente, todas aquelas sensações. W. não era homem de conquistas, e jamais antes tinha escrito algo daquele jeito a uma mulher, e escreveu outra carta a Mary. No final de dois meses, ambos já tinham trocado uma dezena de correspondências, mas pouco falavam a respeito quando juntos se encontravam. Certa vez, foram ver uma festa junina num lugar distante. Estava frio, comeram uma pizza, tomaram uma cerveja depois fizeram o que mais gostava de fazer juntos: horas de conversa sobre os mais diversos assuntos. Ficou tarde da noite, o céu estava estrelado, caminharam de volta até o hotel onde se hospedaram em quartos separados. No corredor, o quarto de Mary vinha primeiro, e ela abriu a porta e se despediram, e W. deu um beijo sutil em Mary. No quarto, W. ouviu um espirro. Passou a mão no fone, discou o número do quarto de Mary e disse, em tom de brincadeira, “saúde”. Mary rio, “que desculpa esfarrapada pra me ligar. Tudo bem, vem pra cá, vem me fazer massagem que to cansada”.

W. não acreditou no convite. Já estava pronto para dormir. Rapidamente se trocou, se arrumou, e foi ao quarto de Mary. Fez massagem nela por horas, e carinho por mais e mais horas. No fim, alta madrugada, deram um beijo. O primeiro beijo. Aquele beijo mudou totalmente a vida de W.. Não houve nada além deste beijo. Dormiram juntos. Na manhã seguinte W. sabia que aquela mulher nunca mais sairia da vida dele, mesmo se ela partisse do território dele, como sabia que um dia chegaria a hora da partida. Mais um tempo, e ele já a amava loucamente. Ela demorou mais, relutou mais, não queria amá-lo pois sabia que seria um amor complicado, cheio de dificuldades. Ambos sabiam. Mas W. estava muito decidido a amá-la.

Andavam juntos o tempo todo. E o amor foi crescendo. Pareciam feitos um para o outro. Almas gêmeas. W. tinha cada vez mais certeza disso. Mary, um dia, enfim lhe disse “eu te amo”. Ele não teve nem palavras. Ela disse isso e saiu. Ele ficou perdido por um tempo. Era seu sonho se tornando realidade em um momento tão sublime.  Era tudo o que mais queria: o amor de Mary. Sabia de toda dificuldade, sabia da loucura de amar uma garota acostumada a vida inteira a chegar e partir mas resolveu atropelar tudo isso e ir em frente, lutar contra tudo e custasse o que custar, tentaria ser feliz ao lado dessa garota. Mas Mary, ao dizer “te amo” não estava disposta a sofrer. Já tinha amada outras vezes, e colocou seu lado prático em ação. Avaliou a situação, e resolveu dar uma chance a W. para ele resolver tudo rapidamente. Mas W., diante de uma situação totalmente nova, preferiu agir com prudência e demasiada cautela. Como imaginava que seria esse seu amor para até o fim de seus dias, não teve pressa. Queria ter certeza de muitas coisas, e queria fazer as coisas de maneira até burocráticas. Foi lento demais, e teve medo. Se assustou com um amor tão grande. Errou por isso. Demorou demais. E Mary, com todo seu temperamento explosivo, com sua indômita alma selvagem, e mesmo amando muito esse homem, decidiu não esperar. E tratou, mesmo diante dos esforços de W., de arrumar suas coisas e partir. Ela era jovem ainda, e ainda queria andar mais um pouco por outras terras. Na verdade faria isso de qualquer jeito, e se prendeu mais tempo nas terras de W. por tê-lo amado. Chegara mesmo a pensar em se estabelecer com ele, que já era tempo de parar e viver em um lugar com um amor de verdade. Mas W. demorou demais, quis fazer tudo muito certinho e sem arroubos. Perdeu a chance de viver com a mulher que o destino trouxe de tão longe para ser seu grande amor. .



 Escrito por Mauro Cassane às 18h51
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continuação...

E ela partiu. W. chorou. Sonhara com isso uma vez. Com mais uma partida de Mary. Mas no sonho ela voltava depois de um longo período. Agora era a realidade. Ela partia mais uma vez. Era a hora de mais um adeus. Para Mary essa foi uma das mais difíceis despedidas. Mas seu lado prático e aventureiro falou mais alto. Partiu e se foi disposta a desativar esse amor, a olvidá-lo também sem se importar se faria muito ou pouco esforço para isso. Já tinha tido outras experiências semelhantes. W. a levou para a estação, a abraçou e ela se foi sem olhar para trás. Por muito tempo, enquanto Mary se sentia sozinha na nova e distante cidade, e diante de um inverno siberiano, eles se falavam sempre. W.  a aquecia com suas palavras cheias de amor e carinho. A saudade o cortava na carne, mas só de ouvi-la ele já se sentia mais vivo, com a esperança renovada. Ela escrevia para contar seu dia e ele a ajudava com o que podia até mesmo para resolver tarefas das mais simples. Se esmerava para ajudá-la, se preocupava com ela e chegava a ligar para lembrá-la de tomar seu remédio.. Mas o tempo passou. Mary fez seu novo círculo de amigos. E lá estava ela novamente feliz, rodeada por gente, sendo querida e convidada para muitas festas. Essa era a Mary de sempre. A Mary do mundo. W., não contei antes, pintava quadros. E voltou a pintar. Todos os quadros eram inspirados agora em Mary que se tornou sua musa imortal. Ela deixou de falar com ele, não ligava mais, não mandava mais notícias. Na nova cidade havia muitas festas, e não demorou a encontrar um bom rapaz para ser se novo namorado. Mary se renovava com extrema facilidade. W. demorou demais, foi muito intenso em seu amor, tinha esperança de que Mary o amasse também da mesma maneira e voltasse para os braços dele. Escreveu cartas e, não tinha resposta. Numa das respostas, em tom carregado e quase rude, demonstrando até uma certa impaciência, Mary disse que não o amava mais. E não mais deu notícias, nem nada.

W. ficava lembrando de todos seus momentos junto com Mary. E pintava quadros e mais quadros com cenas de cada um daqueles momentos de magia e amor. Ao contrário de Mary, ele amara poucas vezes. Diferente dela, e isso ele segredava, ela era, na verdade, seu único amor.  Não parava de pintar. Não conseguia mais se relacionar com outras garotas. Não esquecia Mary de jeito algum. Sabia que ela estava feliz e numa boa, e que talvez nem mais se lembrava de todos aqueles momentos juntos, mas não tinha como ir contra sua natureza. Passou muito tempo triste, pois sabia que Mary era seu grande e verdadeiro amor. Seu sonho de amor eterno fora mais breve que um suspiro no tempo de sua existência. Ele fora amar justo Mary, uma garota de muitos amigos e camaleoa de tantas terras e lugares. Mary agora estava rodopiando, e dançando, e bebendo e se divertindo. E já planejando outras paragens, outros lugares, quiçá outros amores. Não houve vítimas nesta história, apenas maneiras diferentes de se amar.

W. nunca mais parou de pintar. Mary um dia parou de viajar. Mas ninguém sabe se os dois ficaram juntos. O que dizem, talvez seja lenda, é que ela também nunca deixou de amá-lo. Dois séculos se passaram, e os quadros de W. contam uma parte dessa história. Num determinado dia, ele simplesmente parou de pintar essas telas com suas imagens idílicas de um breve momento de sua vida com ela. De Mary, acharam umas folhas amareladas de um antigo diário, o dia não foi possível definir, estava rasgado, mas era o mês de março de 2006, com os seguintes dizeres: “W. é o homem que amo mesmo. Eu amo W., preciso voltar pra ele. É o homem que mais me amou. Já estou cansada de sair por aí, quero casar com ele”. Também acharam centenas de cartas dele para ela. Há uma garota, com olhos de esmeralda, duas covinhas no rosto, e um brilho na alma. É uma grande pintora, chama-se Mary K., dizem que é bisneta de W. e Mary. A moça não pára de viajar e tem amigos em todo lugar.          

 



 Escrito por Mauro Cassane às 18h50
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Palavras bêbadas, a última sexta deste livro...

 

Não é a saudade que dói, é a indiferença. Odeio auto-ajuda, qualquer palavra de auto-ajuda me irrita profundamente. Vai ajudar a puta que pariu. Nunca li, nunca vou ler, livro de auto-ajuda. A gente sempre pensa que o autor é feliz. Que nada. Ninguém é feliz neste mundo. A gente acorda feliz e vai ficando puto durante o dia e vice-versa. Se hoje a mulher que amo estivesse comigo eu me sentiria feliz, mas sempre há coisas no mundo que nos torna infelizes por um tempo, um período, ou até minutos. É bom assim. O foda é ser infeliz sempre. Porra, isso é terrível.

Passo pelo meu pior momento em todos os anos que me conheço como gente. Bem triste. E lembro de um refrão “Tristeza não tem fim, felicidade sim”. É verdade. Oras, fazer o que? Não há o que fazer. Amar é bom, mas é extremamente perigoso. Talvez o correto seja amar superficialmente assim, ao menos sinal de perigo ou problema, basta desligar esse sentimento. Não consigo ser assim. Nasci com defeito de fábrica. Se amo, vou até o fim. Amei poucas vezes, sou muito cru no amor. Sou ingênuo ainda. Tem gente que já amou um monte. Não entendo bem como pode amar tanto assim. Como um coração pode aceitar tantos amores.

Penso na minha infância. Comparo coisas de minha infância com meu amor. Se houvesse um monte de bolinhas de gude e uma delas fosse a Pequeninha, mesmo sendo todas iguais e azuis, eu saberia como acha-la no meio de todas. Sim, saberia na boa. Bastaria olhar para a mais cristalina. Se ela virasse uma estrela, oras mais fácil ainda, das milhares que brilham iguais, eu a notaria ali em cima, muito simples, seria aquela que piscasse pra mim. Mas hoje acho que teria mais dificuldade, talvez ela não me desse esse sinal. Mesmo assim, pensando bem, eu a veria, pois haveria de distinguir as duas covinhas em sua face. Enxergo razoavelmente bem.

Hoje delirei, efeito de algumas taças de Merlot. Bebo sozinho para sonhar com ela. Sonhar sozinho é ruim. Estou piegas demais. Clichê. Domingo a carta, dia dos namorados. Nada de presentes. Nada. Nem um olhar, nem um sorriso, nem um alô. Nada. A vida nos surpreende sempre. Não só a mim. A todos. E o mundo é redondo exatamente para girar com mais facilidade. E dá voltas, e voltas, e voltas. Muitas vezes encontramos pessoas perdidas há tanto tempo. O que era bonito, pode ficar feio. O feio fica bonito. Mas os ponteiros loucos dos relógios que funcionam não param nunca de girar. O tempo passa. A gente se encontra feliz hoje, e se esquece de tantas outras coisas. Mas um dia as coisas esquecidas também vão sorrir. Só que eu não quero nunca me esquecer de quem me esqueceu. Não, não quero. Por isso vou escrever sempre. Por isso abomino o rancor. Hoje ela me ignora. E eu aceito resignado. Mas se um dia ela precisar de mim, ah se um dia ela quiser me ver...vou abraçá-la sim. É lógico. Estou um pouco bêbado. Não se deve nem dirigir muito menos escrever alcoolizado. Não vou revisar. Hoje é sexta-feira.



 Escrito por Mauro Cassane às 18h38
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E então veio a chuva...

 

Estava chovendo, o relógio nos tirou do sono minutos depois das quatro da madrugada. Ela saltou da cama, eu ainda fiquei um pouco mais. Chovera a noite inteira. Ela dormiu atada em mim. Trocou-se bem rápido, botou água pra ferver e me chamou com suavidade.

Não conversamos muito. Ela estava linda descabelada. Escovou o dente como sempre, sua boquinha cheia de espuma e flexionando a escova seu corpo vibrava inteiro exibindo uma sensualidade involuntária. Adorava a ver assim, despojada, ainda com sono, e desarrumada.

Ficava na porta do banheiro assistindo esse cotidiano tão lindo. Me emocionava. Mas ela estava com pressa e de pouca prosa. “Já tá pronto? Então vamos”. Sua voz rouca e pausada pela manhã me enfeitiçava. Fomos.

Chovia sem parar, o carro dela custava a pegar, mas pegava. Sempre pegava. Seguimos em silêncio com Sampa ainda se espreguiçando. Poucos carros pelas ruas. Paramos perto da Paulista. Seguimos juntos, abraçados, guarnecidos por sua pequena e rota sombrinha.

Já havia algumas pessoas ali. Ficamos na fila do lado de fora. Um vento frio soprava, vindo do Paraíso. Ela se encolhia em mim, se protegia em meu peito e com minhas mãos eu lhe cobria a face para aquecê-la. Algumas horas depois entramos, e ficamos sentados no chão frio. A levei para tomar um café quente com pão e bolo. Depois voltamos ao chão frio. Esperamos mais algumas horas.

Tudo para pegar uma senha de partida. E dias depois ela se foi. Carreguei suas coisas, dei a ela um santinho, um abraço, um chocolate e um beijo. “Não tenho mais idade para essas partidas”, ela me disse colada em mim misturando nossas lágrimas. “Te amo”, falou baixinho, em soluços doces. Não a via mais. Mas o cheiro dela ficou em mim. Nunca mais vou devolver.   



 Escrito por Mauro Cassane às 18h32
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Um lobo com seus olhos

 

Estampei em minha pele uma tatuagem

Um lobo adornado com símbolos indígenas

Uma forma louca de amor selvagem

Homenagem sagrada e eterna a ti em mim

 

E se amor é algo que se pode morrer, que morra

E se não era amor, talvez só paixão, não me importa

Te amei com o carinho dos anjos e o fogo dos demônios

E ainda te quero como tenho sede de água e sangue

 

Se me olvidar, te abraço em meus pensamentos

Se não te conquistar, te beijo em minhas lembranças

E te desejo, musa amada, em todos os momentos

 

Mas choro por ti, e escondo minhas lágrimas

Disfarço meu amor, finjo não sentir saudade

Há um lobo em meu braço, com seus olhos de esmeralda



 Escrito por Mauro Cassane às 11h42
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Rio em Sampa com jazz, bêbados e pedidos de Mozart

 

-         Mais por que você não a esquece?

-         Além do mais não se pode pensar tanto em uma pessoa, é obsessão.

-         Rilke, gosto dos poemas dele!

-         Cacete, ninguém tá falando de poema!

-         Isto, cacete é um bom assunto!

-         Acho que você tá meio bobo.

 

Pausa silenciosa. Há mais pessoas no mesmo ambiente, um bar abre suas portas para jornalistas e chegam gays, intelectuais, artistas de plástico de palco e tudo mais. Publicitários, relações públicas, fotógrafos e poetas duros, escritores que fazem bico. As bebidas são mais baratas e tem um imenso quadro de gente procurando emprego e outros oferecendo. Vários ambientes, homenagem ao Rio de Janeiro. Perto da Paulista. É o happy hour mais tarde do mundo, começa às dez da noite, hora que as redações dispensam os escravos do lead. Todos se encontram ali, um lugar como havia antes nos tempos mais antigos. Agora em Sampa, ao lado da floresta constrangida do Trianon, perto da laje erguida do Masp. E tem uns caras que tocam jazz que se formaram em jornalismo mas preferiram tocar música a escrever. Foram mais espertos. E muitas garotas também. O sax do Bello parecia submergir com suas melodias e sair de escombros em solos eletrizantes. Cerveja e cachaça na mesa, fotos em preto e branco dos antigos mestres do jornalismo pelas paredes. E um cheiro doce de fumaça nobre de um bom charuto cubano. Até os charutos são mais baratos, contrabandeados por Betinho, correspondente de internacional. Ele estava à mesa. Eram cinco? Variava, mas estavam ali. Velhos amigos da turma de 1987.



 Escrito por Mauro Cassane às 19h18
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continua...

 

-         Bello, Bello, toca Mozart

-         Isto, toca um clássico...

-         Zombam de ti e você nem se toca.

-         Zombam de mim?Por que?

 

É teimoso, de pirraça não toca. Mas brinca de Charles Parker com virtuosismo. Escrevia bem nos tempos da faculdade. Uma galerinha boa de letra. Agora estão aqui. Cinco vezes quarenta. Quanto dá? Duzentos. Todos na faixa dos quarenta anos. Duzentos anos ali reunidos. Dois séculos. Que besteira. Não faz muito tempo estávamos todos com vinte anos e éramos calouros sonhadores e bebíamos como hoje. Sério. Rápido demais. Não entendo como demoramos tanto tempo para se chegar aos almejados vinte anos e, depois, saltamos abruptamente para os quarenta. Não me sinto velho, nem jovem. Interessante essa idade. Mais vinte anos, faço sessenta. Talvez passe mais rápido ainda. Que engraçado. Temos uma época em que queremos que o tempo passe rápido, e ele é lento. Depois queremos curtir e aí o puto voa feito ave de rapina. 

 

-         Oras, não seja imbecil...

-         Toca essa porra de Mozart, vai Bello...

-         Toco quando eu quiser, vá se foder!

-         Ontem ele tocou, todo mundo gostou...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Mauro Cassane às 19h16
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continua...

Na mesa ao lado umas mocinhas jovens fazem graça para nós. Estão em seis, mas duas são feias demais. O Bello puxa um banco do balcão e fica mais alto, ao nosso lado, toma um trago de cachaça e sopra um blues, brinca na sonoridade rústica de Parker de novo e passa como um relâmpago pelo Mozart. Filho da Puta. Só para se exibir para as garotinhas. Todas com cara de estudante de jornalismo. Ou recém-formadas, estão ali enchendo a cara, felizes da vida, e sonhando como sonhávamos com o glamour da profissão. Naquele momento, eu diria, mais interessadas em outro tipo de glamour.  Será que alguma delas escreve bem? Talvez todas.

 

-         Tem que ter sangue frio...

-         Esse porra fica quieto e fala coisa sem sentido do nada...

 

Betinho é assim mesmo, fica calado por longo período, só abre a boca pra beber e olha para todos da mesa e num rompante solta uma frase do nada, ou pensa alto por um segundo. Sempre foi assim. Passou dias em Israel, viaja muito por aí pra cobrir as merdas do mundo. Há anos faz isso.

 

-         Acho que essas minas tão olhando pra gente....

-         Minas? porra isso é muito suburbano.

-         Oras, vai tomar no seu cu!

 

A noite foi assim no Rio Botequim no coração de Sampa. Um bar para jornalistas paulistanos com cara de Rio de Janeiro. Tem até uma réplica do Cristo Redentor lá em cima da casa, com luz igual ao verdadeiro. No fundo do bar, a reprodução lúdica do arco da lapa com os fios de bondinho e tudo. Um merecido tributo de nossa doce inveja aos monumentos cariocas. Tem até a floresta do Trianon na frente que um amigo carioca brinca que é um tequinho da flora da Tijuca.

 

 



 Escrito por Mauro Cassane às 19h10
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Não a esqueço simplesmente porque a amo

 

 Mais um dia que tiro a cabeça do travesseiro e penso nela logo nas primeiras horas da manhã. Perco o sono bem cedo, mas se estivesse abraçado a ela, nem sei que horas sairia da cama. Era assim quando eu a tinha bem perto, ali mesmo, ao meu lado. Dormíamos abraçados, e eu a trazia ainda mais para perto de mim, envolvendo-a com meu braço e perna, esmagava ela inteira em mim como se fosse estampá-la em meu corpo, e pegava no sono com o cântico daquela respiração cadenciada, seu pulmão enchendo e esvaziando lentamente, o rosto macio sobre meu braço e eu podia sentir em meus lábios o ar quente que havia passeado por dentro dela em frações de segundos. Tragava aquele ar, engolia-o inteiro, para salpicar fragrâncias dela para dentro de mim também. Era assim todas as vezes, sem contar quando acordava a noite para uma sessão de carinho, e também quando eu queria mudar de lado, e a carregava junto como meu talismã inseparável.

A cada pequeno segundo de minha vida ao lado dela, eu a amava mais e mais. Quando conversávamos, concordando ou não com ela, eu adorava observá-la, e quando viajávamos pelas estradas, o visual que mais me deixava feliz era olhar para a direita e vê-la ali, com os dois pés no painel, o banco levemente inclinado, e aquela boquinha entreaberta num sono leve. Minha vontade era fazer o carro flutuar no espaço só para poder tirar as duas mãos do volante e ficar ali fazendo carinho naquela criatura sagrada pra mim. E voltando minha atenção à estrada, não tirava minha mão de sua coxa macia ou de seu pé com marcas da terra como pata de onça.

Lembro de tudo isso o tempo todo, não me esqueço de nenhum detalhe. Por outro lado, tento esquecê-la para poder agora sobreviver. Mas isso está dentro das impossibilidades deste mundo. Como hei de esquecê-la se tanto a amo e amei? Me pergunto sempre: Qual a maldita fórmula para olvidar um grande amor? Ou como se faz para deixar de amar. Há algum meio ou fórmula mágica que tire um amor de dentro da gente? Seria, então, o caso de arrumar outra garota? Ou sair por aí para se divertir, ou buscar sexo loucamente? Ou coloco um anúncio no jornal deste jeito: “homem desejoso de esquecer um grande amor procura outro grande amor ou apenas diversão fugaz”.  Não, isso não existe para mim. Sequer consigo me aproximar de outras garotas mesmo sabendo que de outro ela já está bem próxima. Será que ela o ama? Ou está apaixonada? Por que a amo tanto mesmo sabendo de tudo isso? Por que tenho tanta saudade quando sinto que ela não sente saudade de mim?

Oras, é tudo criação minha. Isso já me disseram. É algo obsessivo, também já me disseram isso. Sou eu obcecado por meu amor? Obsessão me remete à intensidade, porém de maneira pejorativa, ruim. Não, se é isso, então não sou obcecado. Tenho vontade de ficar com ela, tenho desejo, saudade, carinho, tesão, amizade, ternura, paixão. Tudo isso somado não seria amor? Não sei o que dizem, nem como classificar, para mim é amor. Nunca senti nada igual. Como diz aquela canção do Legião Urbana “estar-se preso por vontade”.

Caminho por ai, converso com minha solidão, e meus olhos muitas vezes cruzam com os olhos de outras garotas. Algumas me chamam a atenção por sua beleza, outras pelo carisma, outras pelo astral, outras ainda pelo bom papo, e outras mais pelas afinidades compartilhadas. Se fosse agir como normalmente se age, eu teria vontade de, a grosso modo, passar uma noite com cada uma delas. Porém simplesmente não consigo. Penso muito nisso. Há aquelas bem mais belas que ela, outras mais sensuais, tem as mais bem melhor sucedidas, outras bem mais viajadas, as que amam o que amo e outras tantas com um voraz apelo sexual. Seria normal e lícito tentar esquecer meu amor por ela buscando esses recursos tão abundantes. Não falta gente nesse mundo. Se há algo neste planeta que se tem em fartura são pessoas. Há de todos os tipos, cores, raças, formas e perfis. Encontrar aquela que se encaixa a você é mais simples que achar um par de sapatos. Basta querer.

Agora, por outro lado, encontrar a alma gêmea, encontrar aquela que vai te amar de verdade, que não vai se importar com seus defeitos muito menos se focar apenas em suas qualidades, oras, isso é algo tão raro quanto uma estrela cadente. Sim, estrelas há aos montes no céu, todas tão brilhantes e lindas, mas poucas dispostas a se atirar no imenso vazio noturno somente para te fazer sorrir. A Pequeninha é minha estrela cadente, minha musa e minha amada para sempre.   



 Escrito por Mauro Cassane às 14h35
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A travessia, a solidão e a saudade como companhia...

 

Se fosse fazer um paralelo sobre o que é o amor pra mim, sobre o que senti, eu usaria o mar. Entramos no mar juntos, estávamos no conforto da praia com suas areia quentes, com aquela maresia, e todas as pessoas à nossa volta. A praia é um lugar perfeito para paquerar, curtir e para uma aventurazinha sem maiores desdobramentos sentimentais. Lá estava eu, e por lá também a vi. Começamos a conversar na areia, e ela sorria, mas não demonstrava muito interesse por mim. De repente começamos a entrar juntos no mar. Um simples banho refrescante, esse mar do amor sempre é convidativo, mas as pessoas normalmente só se refrescam, ninguém vai tão fundo e nós já tínhamos alguma experiência nesse mar, então resolvemos entrar.

Brincamos, nadamos, e começamos a não ligar mais para a praia. Eu a segurava, ela me puxava, nadava sozinha e eu a observava. Adorava observá-la. Acontece que no mar do amor se recomenda ficar no raso, curtindo suas ondas mais suaves. Mas nós dois já estávamos simplesmente apaixonados. Acho que mais que isso, ela mergulhou fundo algumas vezes, e mostrou pra mim sua disposição de ir em frente e transpassar as grandes ondas de lá adiante onde, dizem, dá no paraíso. Mas ambos sabíamos o que isso significava. Depois de um certo ponto não é mais brincadeira, é tormenta mesmo, não se chega à bonança sem transpassar a tempestade.

Eu sabia o que queria, sabia das dificuldades que enfrentaria, os medos, os tombos, a loucura, o estresse dessa louca travessia, mas estava disposto e ela exibia para mim uma vontade e determinação incomum. Eu via nos olhos dela e sentia no coração, em tudo dela, que a gente venceria todos os obstáculos, e não iria adiante se não houvesse sentido isso tudo nela. Além do mais, como notei, ela era uma exímia nadadora nessas águas. Eu, nem tanto, mas confiava nela. E assim deixamos para trás o conforto e a segurança da praia, com sua areia quente e tantos tesões e paixões, e saímos felizes nadando ferozmente e com toda energia em direção às grandes ondas. Ela me dizia “a gente surfa nelas, fique comigo, a gente vence todas, mas não saia de perto de mim”. Foi o que fiz.

Nas primeiras grandes ondas, eu me assustei, talvez fui até um pouco covarde, mas ela foi mais forte, venceu-as, me estendeu a mão, me puxou, e eu fui resoluto com ela. Seguimos em frente. Mas esse mar não é assim simples de se vencer. Vieram outras tantas, uma mais escabrosa que a outra. Enormes ondas nos jogavam de um lado para outro. Em alguns momentos ela ameaçou até retornar, mas eu, mesmo com pouca experiência, voltei atrás dela, a segurei, a reconfortei, e seguimos juntos. Eu sabia que venceríamos a tormenta. E eu sabia que, com ela, eu seria o homem mais feliz do mundo e isso me dava uma força incrível, um fôlego sobrenatural. Só de olhar para o lado e vê-la ali comigo, ver o sorriso dela, eu já me sentia revitalizado para continuar nossa travessia.

Pegamos então a pior tempestade. As coisas deram errado, o mar bravio e ondas assustadoramente grandes a arrastaram para outro lado, e me tiraram ela de meu campo de visão. Foram noites terríveis, escuras e desoladoras. Certamente uma provação de nosso amor. Meu maior medo era perdê-la para sempre. Mas nadei, lutei, chorei, e a encontrei. Ela estava já um pouco fraca e não sabia mais com tanta certeza se valia mesmo à pena fazer essa travessia comigo. Eu a encorajei, a beijei, nadei com ela em minhas costas, e ela foi em frente. Mas esse mar é impiedoso e não demorou e outra tempestade se armou ainda mais severa que a primeira, eu disse a ela “essa é a última tempestade, vamos nadar com toda nossa força, estamos bem próximos da bonança”. Não senti tanta firmeza nela, acho que ela nunca tinha ido tão longe nesse mar. Então nadei alucinadamente para vencer esse derradeiro obstáculo e, já vencendo a última grande onda, olhei para trás e não a vi. Fiquei ali buscando com meus olhos o horizonte sombrio de onde viemos, e a vi ao longe, bem longe, boiando de volta para a praia. Eu gritava para ela retornar, mas ela apenas me acenava.

Eu dizia “hey, Pequeninha, é aqui, mais um pouquinho e já é aqui, volta, eu te ajudo, eu te busco aí, vem pra cá”. E ela apenas me acenava com sua ternura. Ela voltou à praia, a volta é até tranqüila, parece que forças nos levam para o conforto. E lá na praia com sua areia quente, confortável, gente bonita, paqueras, tudo com tanta luz, quase não há tempestade. Eu a via no meio de toda aquela gente bronzeada, e eu ali, no fundo, ainda com uma nuvem carregada e cinza sobre minha cabeça que parecia rir de mim. Eu reunia minhas forças e saltava sobre a água para mandar beijo, para encorajá-la e vir comigo, e ela acenava de volta e eu pensava que ela me dizia “te amo, vem me buscar”. Mas num momento de calmaria das ondas eu ouvi um som que, pra mim, foi o mais duro golpe nessa travessia “adeus, na praia estão meus amigos de verdade, aqui é melhor, essa travessia não é boa, muitos problemas”. Queria não ter ouvido isso, e depois disso não a vi mais. A corrente me levou pra frente, não havia nem com quem conversar, essa é uma travessia que se faz a dois. Não a vi mais, não consigo mais acenar para ela, e aqui faz tanto frio. Na tal ilha paradisíaca onde íamos, não me deixam entrar sozinho. Era para entrar com ela. E eu sabia que seria difícil, mas acreditei tanto naquele olhar, e quando ela me disse “eu te amo”.

Eu acreditei, para mim era para sempre. Tinha certeza que a gente venceria todas as ondas. E vencemos quase todas. Faltava a última, e a última nem foi tão difícil, pois a venci sozinho. Ela preferiu voltar à praia, na verdade, devo admitir, lá tem muito mais calor humano. É o que eu deveria fazer agora. Mas não me sinto bem agora na praia, queria estar com ela. Está frio aqui, talvez me afogue como muitos se afogaram, mas optei por ficar quando o mais inteligente seria voltar. Não me importo, vou ficar. De repente eu posso me surpreender, e ela grita de lá pra mim. Se ela chamar eu vou buscá-la, agora sei o caminho, agora esse mar já me conhece bem, agora posso passar tudo com facilidade. Agora eu posso ser feliz com ela. Ah, se ela me chamasse mesmo antes de me afogar. Com certeza eu seria o homem mais feliz do mundo. A solidão é ruim, mas amei com tanta força que a louca saudade dela me faz companhia.



 Escrito por Mauro Cassane às 16h34
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