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A salvação
Depois de quatro dias de mau humor, de algumas brigas em que até ensaiamos terminar tudo, e eu querendo ir embora de lá, pensando em nunca mais olhar praquela criatura horrorosa, estou efim no lugar seguro da minha vida que é meu carro dirigindo pela rua sem saber direito o que faria, bem cedo, depois de uma noite estragada, e levando o carro para o local do trabalho mas sem qualquer vontade de me trancar naquela gaiola de vidro. A indigestão das discussões me consumiu e me estragou o estômago fraco para brigas, bom para bebidas, mas ruim demais para aguentar as conversas tristes dela que me acusava de estar distante e de não dormir todos os dias com ela. Meu momento de solidão com o rádio tocando alguns blues, e o trânsito parado sob o sol delicado no céu matinal como pão fresco com manteiga derretida. O celular toca, não gosto quando ele toca pois quebra meus pensamentos, ou no meio de uma linda canção que me envolve os sentidos, todos os sentidos loucos e desesperados que temos quando amamos uma criatura ainda mais louca, ainda mais complexa e sentida que a gente. E ali estava aquela voz doce, porém naquela manhã meio doente, caída de dor, uma dor terrível de cólicas lancinantes, que me deixou triste por vê-la quase chorando, e desesperado para poder fazer algo por ela, mesmo tendo brigado a noite anterior, mesmo com toda vontade de tê-la abandonado pra sempre e por toda raiva que sentira, mas ela ali, com aquela voz de sonhos em campos floridos, com seu chorinho de criança mimada, me enchia novamente o coração de amor, e até de um libidinoso desejo por ela, pois a desejava tanto e com tamanha intensidade que me perdia nesses sentidos todos e muitas vezes sumia de sua cama para andar pela sala e beber um resto de vinho da taça largada no canto do sofa. Ela me pediu pra ir socorre-la, para salvá-la da dor dessa cólica menstrual, para tirá-la desse mundo por um tempo, daquela loucura dela, e segurá-la no braço. Minha raiva, e a dela também, foram embora, não existia mais, minha vontade de acabar com tudo, nem sequer vestígio encontrei, e desviei o caminho, entrei em mais confusão de carros, furei faróies, passei por algumas calçadas, desliguei o bom som dos blues no meu rádio e fui direto para vê-la, para libertá-la daquela crueldade toda, me sentida seu cavaleiro da esperança, seu salvador. Parei numa farmácia e comprei o remédio que ela havia pedido, e fui rápido pra lá. Cheguei e a porta destrancada e entrei pisando suavemente, ofegante, mas ela estava quietinha na cama. Calada, imóvel, com o ventre pra baixo, e sua linda bunda coberta por um fino lençol velho de algodão, com aquele indiscritível cheiro de rosas e lírios, e seu cabelo todo desalinhado e lindo mesmo assim. E cheguei perto, passando a mão por suas pernas e seguindo firme até suas costas, e voltando e subindo novamente. E ela gemendo suavemente, e lhe dei o remédio, bem numa colher, naquela boquinha delicada, lábios rósas e trêmulos, e dei-lhe água, e abracei, e apertei-a em meu peito. Ela bem quietinha, linda, me falando coisas baixinho. Estava melhor pela voz, não gemia mais tanto. Me deitei ao lado dela, na cama com cheiro de flores silvestre e aquele lençol surrado. Ela estava mesmo melhor. E a beijei, e tomamos banho, e a levei passear. E me senti o mais feliz dos vagabundos.
Escrito por Mauro Cassane às 14h06
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Uma louca tarde no parque
Sorríamos nós dois no carro feito crianças faceiras, e nossa amiga, no banco de trás com seu jeito de menina revoltada com o mundo e a vida, e com sua cara de francesa meiga e fatal, cabelo bem negro e tão curto que saltava aos olhos um pescoço cândido e um olhar atormentado, nada dizia, nem sequer ouvia, mas ficava olhando distante os carros parados da triste avenida paulistana com cheiro de tarde seca de um quase inverno. O sol do almoço brilhava sem muito gosto e vontade, mas íamos nós três roubar nosso tempo num fugaz passeio no parque. Eu queria fotografar minha amada por causa de sua cara louca de Teda Bara, daqueles olhos vivos e aquela sempre severa expressão na fonte, de quem não gostou nada dessa minha cidade, de quem odiou na verdade, mas estava ali, feito um órfão desamparado e fraco, não podendo voltar ou correr embora, estava ela ali, ao meu lado e sorrindo comigo, mas sua marca severa nunca lhe fugira ao semblante doce. Eu queria fotografá-la assim mesmo, louca e suave, brava com esse meu mundo, mas tão macia com minhas palavras, tão linda ao olhar para mim nas tarde vermelhas em sebos baratos, tão pequena e frágio que me dava vontade de segurá-la no colo para fazê-la dormir um pouco, descansar de seus pesadelos.
No parque andamos entre as grandes árvores velhas, de chão batido de terra marron, as duas com seus óculos escuros ficaram com caras distantes, com bocas cerradas de quase gente cruel, ou jeito de modeletes rabugentas e desanimadas, como todas moças belas de óculos escuro ficam. Andaram juntas e fiquei para trás, para observá-las nesse passeio tolo e sem propósito, batendo fotos das bundas, das caras, das bocas, dos óculos. Dia de semana, todos trabalhando e três vagabundos no parque, com algumas crianças jogando futebol e basquete. E nossa amiga desdenhando daqueles que por ali se punham a correr como se estivessem com medo de morrer, assustados com a velhice e com os anos que os aproximam da morte tão certa e sedenta daquele cadáver em boa forma física. Ela que caminhava lentamente, com passos sem qualquer cadência ou decência, caminhando solta com seu ar reprovador e superior, de musa notívaga e bêbada, ela ali fora do seu mundo e caminhando no parque dos bronzeados, das senhoras e moças belas e de boas formas e ela ali, rindo de todos, com sua beleza translúcida, cabelos espaciais de um negro profundo rindo com minha amada e contando piadas sem graça, e lembrando de outras coisas de noites passadas. Todas as duas tão fora do mundo delas, e tão dentro de mim naquele momento que me deu uma paz e pedi para que parassem em um amontoado de galhos e troncos caídos, e ali as fotografei até a última chapa, até meu amor subir no alto de uma árvore com seus galhos que queriam se projetar para todos os cantos do parque, em todas as direções os galhos queriam alcançar tudo ao mesmo tempo e ela ali, debruçada neles, confusa na sua própria direção, no que fazer ao certo, mas linda naquela confusão toda, tão linda que pensei em dizer isso pra ela, mas acho que nem prestaria atenção.Por isso não disse nada, apenas fotografei tudo já que me disseram, e muitos ainda dizem, que uma imagem vale por mil palavras. Pois bem, fiz bastante imagens. Então nem preciso mais escrever.
Escrito por Mauro Cassane às 16h00
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Na noite de champagne
Naquela noite, tão linda estava ela, de negro, cabelos soltos que, de tão soltos e livres ondulavam como o mar. E os olhos de esmeralda não me fitavam assim de perto, mas passeavam pelas gentes diferentes que se deitavam em conversas protocolares que nada diziam com seus jeitos engomados. Mas os garçons serviam a melhor champagne, tão gelada e borbulhante nas taças elegantes, que desfilavam um perfume sensual no ar. Ela ali, então parou nos lindos saltos delicados, com suas plumas negras, e esmaraldas delicadas, a conversar com alguém que a achou tão linda e sexy, tão mágica como a noite que brilha sem luar e ela ali ficou, com sua conversa de mundos e sortes perdidas. E tão perto de mim, tão minha e ausente, e as taças dançantes trazidas por homens de branco e negro, os garçons novos, rapazes bem apessoados, de cabelos cuidados, e também a olhavam encostada num sofá moderno de cores vivas desse lugares modernos que as pessoas se sentem modernas e tudo mais. Ela ali, com suas formas desenhadas pelo negro vestido delicado, e escondendo suas cicatrizes e seu jeito de chinelo de dedo, e suas características poéticas de hippie, de quem fez pulseiras de corda, de quem anda descalça, com seus pés com calos disfarçados no Luiz XV. E ela encostada naquele sofá com os olhos perdidos agora, na terceira taça, ou quarta, não sei, acho que não contei a quarta, e o sujeito tocou no seu cabelo de ondas do mar, e ela fez que não foi nada, e se virou e foi guardar a tacinha, e tropeçou, ele a ajudou segurando-a pela cintura e lhe deu outra taça que passava voando, tão cheia de esplendor borbulhante e gelado. E ela sorriu com aqueles dentinhos de menina pequena, um sorrisinho de uma criança que brincava com cachorros e roubava os patinhos da vó lá no sítio distante, e levava pra casa e seu pai devolvia depois. Ela sorria com esse sorriso sempre, quando bebia esse sorriso estava ali, naquela face de pêssego ruborizada pela devassidão da champagne. Os homens passaram, muitas conversas e não entendia mais nada, pois também em minhas mãos dançavam as taças. Mas todos se foram horas mais tarde, muitas horas depois, muito tarde. E o ambiente vazio, os sorrisos cansados e até tristes. A última dose chegou com a garrafa ao meio e ali ficou naquela roda de loucos e mais um brinde corporativamente feito aos anfitriões que se juntaram a nós, os convidados ilustres perdidos na naquela fantástica parada noturna. Ele queria levá-la mas ela não quis e foi ao banheiro tropeçando na rampa encantada, como uma plebéia cujo feitiço seria ali desfeito, e foi ao banheiro sem rumo, meio perdida. E fui atrás, e fui buscá-la para que não caisse, para naõ tropeçar e não se machucar e segurei-a no braço. E a trouxe de volta ao infeliz que mais uma vez se juntou a ela. Mas ela queria ir embora, e a levei. E o carro não tinha mais rumo. Me perdi, não sem antes me perder num dos beijos mais loucos no meio de carros que se desviavam para não nos matar. Mas já estávamos tão mortos de amor. E o dia amanheceu em algum lugar da cidade, um dia como outro qualquer.
Escrito por Mauro Cassane às 10h38
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Um sufocante pôr do sol que avisto de minha janela, na cama, na solidão tão larga e escura, vejo esse astro cultuado pelos humanos indo embora e mergulhando no horizonte sombrio da periferia paulistana, indo com toda sua luz para o outro canto do mundo, onde vai brilhar e aquecer tudo por lá. Que se vá, então. Vejo-o indo apenas pela fresta da janela, e sua luz tênue não aquece mais nada, és fraco e decrépito nesse seu sepultamento em pompas e cores. Que se vá, sol barulhento, que põe essa gente toda para fora nesse domingo tolo de verão onde os trabalhadores buscam o que fazer e nada fazem e se cansam e as crianças querem mais, e todos andam meio que sem rumo. Que se vá, sol doente de domingo vazio. Aguardo sua partida para me libertar.
Escrito por Mauro Cassane às 19h35
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