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O diabo, o ouro e o papel
Converse comigo meu amor. Converse um pouco, me faça um carinho, nem que seja assim, duas palavras. Estou nessa encruzilhada escura, não sei onde posso virar, e tenho quase certeza que uma delas me levará ao inferno e vou lá ter com o sete peles. Me faça um carinho, apenas um afago num dia frio, como aquele que você me fazia e que me deixava tão vivo. Estou com saudade, e esse é o sentimento triste para quem vai perdendo a esperança aos poucos, como paciente terminal que já enxerga a própria morte no espelho. Não olhe pra mim com pena, isso me faz ainda mais mal, prefira então virar a cara para o outro lado, tente fingir que não existo. As pessoas são boas nissos, amam aquele cãozinho lindo e fofo, mas um dia ele adoece, perde os pêlos, ou envelhece e definha, e invariavelmente são abandonados e ninguém sente qualquer remorso por isso. Cada vez mais vou ficando com medo dos humanos e de sua natureza cruel. O amor parece papel que se rasga ou se amassa e se joga no lixo, mas eu criei um amor de metal duro e brilhante, e agora ele fica aqui me engasgando, impedindo meu ar, tapando minha visão. Por que fui tão idiota? Ou será mesmo que posso me sentir idiota por amar como ouro e não como papel, por meu amor não ser volátil, por meu amor ser amor de metal? Não sei mais, e nessa encruzilhada há o caminho ao puto dos diabos. Estou admitindo a possibilidade de ir até lá e pedir um afago, ou pelo menos que ele me ajude a fazer do ouro um papel também. Mas é tão bom ter esse ouro em mim, tão dolorido, mas tão lindo. O ouro é pesado demais para se carregar sozinho neste deserto imundo e solitário. Papel é melhor para viajar pelo mundo, cansou é só amassar e jogar no lixo. É descartável. E eu quero mesmo, sempre quis, um amor de ouro. Mas agora o carrego sozinho, e assim não tem valor algum. Só é duro, pesado e dificil de carregar. Ouro se carrega sempre a dois. Vou ter com o diabo mesmo, esse meu pedaço de ouro deve render toneladas e toneladas de papel...papéis para meu gozo e prazer para o resto de minha vida. Mas nunca para minha felicidade. O que quero? Gozo ou felicidade? Me parece que as pessoas preferem mais o gozo, eu também era assim. Foda-se. Se pelo menos o diabo me der alguma atenção, de tão carente que estou, já me dou por feliz. E não vou dar ouro algum pra ele. Vou carregar isso por mais um tempo, de repente ela se enjoa de tanto papel e gozo, e fique afins de compartilhar esse ouro comigo.
Escrito por Mauro Cassane às 13h01
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Uma lembrança
Eu queria contar um pouco, para todos que me ouvissem,
de como é lindo te ver caminhando pela cantos de nossa
casa, botando água naquelas plantas, tirando peças de
seu antigo lugar, pintando coisas e cozendo seu cachecol.
Te ver ali, sentada num canto, ouvindo suas músicas, ou
lendo seus poemas de verão, remexendo velhas fotos,
ou tomando um suco de frutas da terra. Ali, bem quietinha,
feito um acanhado colibri, de branco com sua seda sob os seios.
Que linda, pequeninha, seus passos acariciam a dureza de todo
chão e me convidam para dormir no pedaço perdido da cama,
que me acolhe com seu forte cheiro de ferro, fogo e madeira.
E se tu se descobres e se esfria com o tênue vento que invade
seu esplendor, faço do ato de lhe cobrir novamente a mais solene
de todas as tarefas, beijando sua pele indecente, com carinho e amor.
Escrito por Mauro Cassane às 10h05
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Pra você
Meu amor, com lágrimas e esperança renovo meus dias
para manter meu coração aceso, como criança que traz
a lenha e dança com o fogo. E se não te vejo
como gostaria, nem te alcanço a mão e a alegria,
me esmero como alquimista para imaginar seu olhar
e fazer dele as pérolas que adornam minha alma e
meu peito ferido, para preencher o vazio de deserto
e me aquecer do frio, e me livrar da dolorosa solidão.
Seus carinhos guardados em minha pele, busco por
eles ao cair da tarde, e no cheiro da grama úmida e
entre as paredes disfarçadas de minha desarmonia.
Minha princesa, com seu sorriso mais doce, e encantos
de frutas frescas, me cubro todos os dias para me tirar os medos. E assim sonho com suas ingênuas covinhas santas.
Escrito por Mauro Cassane às 10h04
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Percorro os caminhos e vou olhando para os lados.
Olho para trás, volto um pouco, corro também.
Tento seguir seu perfume e suas pegadas leves
apagadas nas areias dessas praias e desertos
Observo as estrelas que assistiram aquele beijo
que te dei com a lua envergonhada meio escondida
entre nuvens sorridentes. Mas não te encontro, então
sigo a passos firmes mais adiante, talvez depois
daquele monte lá no horizonte, ou até após aquela
curva entre as dunas, eu te veja descansando, quem
sabe até me esperando numa sombra de figueira.
E sigo cantando para distrair um pouco minhas
mágoas, companheiras desse curso e meu destino,
e ainda encontro tempo para um sorriso a um estranho...
Escrito por Mauro Cassane às 16h42
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pesadelo de insone
Sua demência se aproxima,
como a delicada lâmina que abrirá meu peito.
Suas flores se derretem, perdem o viço,
e minha natureza derrama uma derradeira lágrima
de desespero. Não, não é mais um choro, nem um lamento,
é apenas a dor desesperada da carne rasgada.
Seu jardim já está doente, e a cova ainda nem
foi aberta. Mas estou demasiadamente fatigado
para cavar mais. O sangue percorre então seu caminho
pelas marcas de minha face cansada, marcas por ti
deixadas com carinho. Sua demência se aproxima
e meu coração agora já pulsa ao meu lado,
onde ainda posso vê-lo lutando antes de fechar
meus olhos e mergulhar na luz da penumbra
eterna.
Escrito por Mauro Cassane às 15h41
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Os olhos estão quase se fechando, e ainda vejo uma luz piscando na tela do micro. A página tá em branco e fico aqui tomando um chá pra dormir, mas o sono nunca vem. Acho que há uma nova genética nos humanos que dispensa o sono, ou talvez precisamos apenas de algumas horas de vadiagem na cama. Ou a cama que não curte muito minha presença desaventurada, largada. Sei lá. Há pessoas que gostam de dormir, outras que gostariam. Eu pertenço ao segundo grupo. Queria dormir como os gatos, 20 horas por dia. Mas comigo rola exatamente o oposto, durmo parcas quatro horas. Acho que sou um lobisomem. Que bobagem. Insônia é uma merda. Peguei um livro pra ler e odiei o início. Nem vou mencionar o autor que é famoso. Uma vez li uma frase do Kafka - meu ídolo - que dizia algo assim: se queres ler algo legal, escreva você mesmo. Faço isso quase sempre, mas nunca cabe no blog. Aqui tem limite pra escrever, e não sei como faz pra colocar textos maiores. E de repente não é pra colocar mesmo. Aliás não sei nada de internet. Só sei escrever aqui neste espaço e apertar o "salvar e publicar". Só isso. Leio todos os comentários do blog, mas nem sei como faz pra responder. Gosto de computador porque as teclas são macias e a gente escreve como se estivesse patinando no gelo, a máquina de escrever é patinar nos paralelepípedos. Mas escrevi pra caramba nas velhas Olivetts que nem elétricas eram. Agora é no computador e as teclas do meu são tão macias que parecem bundas de anjos. Dedilho bundas angelicais toda madrugada. Bundinhas macias e durinhas. Como da minha amada. Nossa viajei. Agora chega. Vou dormir. Isso não foi um conto, nem nada. Apenas uma brincadeira.
Escrito por Mauro Cassane às 01h01
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Matar um poema é como matar um pedaço de nossa alma, uma célula viva que tá ali por alguma boa razão. Hoje matei um poema meu. Apenas para sentir o gosto de suicidar um pedaço de mim.
Escrito por Mauro Cassane às 19h37
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A volta...eu vi alguns humanos
Voltei de viagem. Andei por ai, vi lugares, vi pessoas. Aliás, se vê muitas pessoas em tempos de férias. Há algo terrível nisso. Não sei ao certo, mas há algo tenebroso nas multidões. Li no jornal que uma garotinha de 14 anos foi morta pisoteada numa praia no Rio. Eu sempre tive medo de multidões. Nem vou a estádio, ou a shows, nem nada. Prefiro ficar aqui no quarto. Viajo de moto por estradas de terra no meio do mato, não vejo ninguém durante o trajeto. E se vejo é por apenas alguns segundos. Aqui no computador também não vejo ninguém, só uma tela fria piscando pra mim. Quando vejo alguém fico meio desesperado, nem sei o que dizer. Parei em algumas cidades, sai na noite e vejo um monte de garotões estufando o peito e garotinhas também com seus peitos estufados, e bundas arrebidatas, e seus copos em mãos e rindo. Os garotões abordam as garotinhas, e essas riem e desfilam. E nos cantos acontecem as frenéticas catações e essas coisas todas. Sempre igual. Em todo lugar do mundo é assim. Quando eu era garoto acha isso coisa de adultos vazios, agora que sou adulto acho isso coisa de garoto vazio. Eu é que tô por fora de tudo isso. Não consigo me enquadrar nesse padrão. Um rosto bonito conquista muitas coisas a seu redor, causa um frenesi. Garotas disputam o garotão mais apolínio, e um bando de rapazes apostam entre si quem vai pegar qual garota. No fim, feios e bonitos têm lá sua noite de prazer, seu gozo fugaz. Observo tudo isso com uma segura distância de toda essa gente, tenho muito medo que também pisoteiem minha alma. Nas noites por aí, tanto aqui como acolá, um rosto e um corpo bonito é tudo, decerto que vale também um bom papo. Acho que só isso. É interessante assistir a humanidade nessa busca louca pelo prazer. Mas ainda prefiro acreditar nos poemas do Neruda. Por isso sempre peço mais uma taça de vinho, e invariavelmente durmo sozinho.
Escrito por Mauro Cassane às 22h58
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este é um poema, eu diria "o poema". Quero guardá-lo aqui, não é de minha autoria, mas talvez um dia eu faria algo assim. Vou guardá-lo aqui, e também em meu coração para sempre.
Quítate ya los trajes, las senas, los retratos; yo no te quiero así, disfrazada de otra, hija siempre de algo. Te quiero pura, libre, irreductible: tu. Sé que cuando te llame entre todas las gentes del mundo solo tu serás tu.
- Pedro Salinas -
Escrito por Mauro Cassane às 21h41
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