Tão longe, tão perto


Deixa eu cuidar de ti...

A sua natureza cigana, é minha vida

que brilha com seus olhos preciosos,

de onde vem minha alma, onde colho

minha morte, onde morro todos os

dias  e onde corro para te ver mais

uma vez pendurada na janela só para

assistir o sol se pôr entre seus braços.

 

E se me descuido um pouco de ti,

mergulhado nas lembranças oníricas de seus

beijos tão doces, não penses que

não te cuido com os remédios para

seu colesterol sombrio, ou te acudindo

na noite fria, ou te cobrindo se acaso deixo

a cama vazia. Te beijaria mil vezes todos os dias.

 

Cansada de sua jornada de luta, deita aqui

ao meu lado, dou-te banho e te enxugo

a fonte, seco seus cabelos macios, cachos revoltos,

te embrulho para te aquecer um pouco,

beijo seus lábios trêmulos e me esqueço das

horas massageando sua pele de fruta até

você dormir como uma criança rebelde... 



 Escrito por Mauro Cassane às 18h20
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Na estrada

Uma vez eu ti vi lá na estrada

Havia uma festa, talvez estivesse bêbado

Eu queria apenas me divertir...

 

Não sei o que se passou,

Te vi tão linda, olhei seus seios de soslaio

E você não me disse nada...

 

Te segui um pouco pela calçada,

Olhei aquela iguana em seus pés descalços

E contei as pintas de suas costas delicadas...

 

Me parecia então um conto de fadas

quando você sorriu pra mim com seus olhos

tristes e me encantei com suas loucuras ciganas...

 

É, Pequeninha, eu te vi lá na estrada,

e tive que mudar meu caminho errante para

seguir seus passos dançantes de índios selvagens...

 

Em cada velho e sujo livro em sua estante

versos loucos de nossa história sagrada

lembranças de noites delirantes, beijos alucinados...

 

Uma vez eu ti vi lá na estrada,

e tive que mudar meu rumo e você

não me disse nada...

 

 

 



 Escrito por Mauro Cassane às 17h34
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Pequena flor da ilha dos corpos laranjas e seus velhos marujos sábios

Parei o carro num velho posto sujo e decadente depois de muitas horas atravessando a úmida madrugada paranaense, vindo do lado Sul, das frias praias de Florianópolis que os íntimos a chamam de "floripa", como se fosse uma pequena florzinha serelepe que enfeita o educado estado de Santa Catarina. Passei alguns dias perambulando pela ilha, andei pelo antigo porto durante uma noite triste e foi o que mais me fascinou, pois ali vi as pessoas mais loucas e diferentes de minha vida. Gente muito clara, com suas peles envelhecidas, seus olhos azuis assustados e desconfiados, encostadas nos cantos fétidos, sempre com garrafas de bebidas embrulhadas em papéis, tudo revestido com um forte odor de urina e fezes humanas. Mas havia ali um certo orgulho naquela gente, uma jocosa alegria cuidadosamente dissimulada na presença de estranhos, e isso me fascinou tanto mais que as praias ensolaradas, com seus tediosos surfistas ostentando seus corpos desfigurados por músculos e manchas esverdeadas formando desenhos tristes e solitários em suas peles de anjos dementes. Todos jovens adornados com aqueles óculos iguais, e mais e mais rodas de garotinhas branquelas e alaranjadas, com suas latinhas de cerveja e copinhos com caipirinha de kiwi, algumas fazendo pose de intelectual se esticavam feito lagarto sobre um pano colorido com um livro qualquer para correr olhos pelas palavras com a mente atenta a tudo em volta menos no conteúdo do estúpido livro. Minha noite triste no porto foi a melhor de todas, e dividi uma cerveja no boteco espremido entre o antigo mercado e uma nova avenida, com um senhor barbudo e roto, mas com uma boa conversa sobre os velhos marujos e pescadores que traziam antigamente o sustento da ilha. Me falou também de amores distantes, daquelas que ficaram nas mais longínquas cidades e me contou que com uma se casou, mas a infeliz morrera ao dar a luz a um garotinho que, também, se perdera na vida. Gente de rua sempre tem boas histórias. 

No posto não havia mais ninguém, e as aparências indicavam que há anos alma alguma passava por ali a não ser os andarilhos vagabundos que dormiam sob a maquise esburacada. Nem me importei, queria apenas me espreguiçar, mijar e seguir viagem. O céu encoberto tornava tudo tão negro e melancólico, e no aparelho de cd do carro tocava "I still haven´t found what I´m looking for", não sei porque razão sentei no chão de asfalto moído e esburacado, bem ao lado das bombas estranguladas e retorcidas, violentadas pelo tempo e pela crueldade dos homens, e fiquei imaginando que aquele posto já teve seus dias de glória, quantas pessoas já passaram felizes por ali, retornando de suas férias com suas famílias, suas namoradas, mulheres, crianças. Agora tudo parecia tão morto, porém, curiosamente, havia uma certa alegria dissimulada entre as velhas bombas quase envergadas de ferrugem, talvez não estivessem rindo na minha frente exatamente envergonhadas pela minha atrevida e inusitada presença. Me lembrei do velho do porto de Florianópolis e de toda aquela gente cinza que habitava os arredores somente depois das horas normais das pessoas comuns. Resolvi esperar o fim da próxima canção, "with or without you", essa me lembrava muito os olhos de esmeralda de meu amor, mas eu não consegui encontrá-la nesta louca viagem. Amanhã, talvez, eu a veja, ela sempre aparece.   



 Escrito por Mauro Cassane às 10h47
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Crueldade...

Sonho com meu grande amor tão distante,

nos arrabaldes deste velho planeta cinza

e a vejo sob mãos que não são minhas, me

parece por um beijo embriagada, minha deusa.

 

Queria sua ternura aqui comigo, passeando por

nossa horta de ervas delirantes, contemplando a

chuva fresca com nossa loucura e fumando no

bafo quente do vento norte, minha amada.

 

Ah, mas me parece tudo tão impossível

e cruel e sem poesia. Sem ela não sou nada,

além de um morto com seus pesadelos indecentes.

 

Eu não a vejo como queria, todos os dias,

nem a tenho como sonhei, todas as horas,

mas a amo, como nunca amei, para sempre. 



 Escrito por Mauro Cassane às 14h47
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Boa noite...

Meu amor, quando você me dá boa noite,

aqui bem ao meu lado, ou distante como uma

ave de rapina, meu coração se precipita em

disparos azulados e meus lábios buscam-te.

 

Meu dias vão se passando sem o sal de seu

corpo profano, sem sua ternura em tardes

suaves, e me deito sem jeito na escuridão

de meus pesadelos febris, sem sono, sem nada.

 

Nessa atmosfera caótica, incho meu peito

com o ar que ainda me resta, vindo de seus

pulmões fatigados pelo deserto e consigo sorrir.

 

E sinto o calor de suas entranhas mais puras,

Imagino seu leito perfumado com flores do campo

mas morro todos os dias com sua boa noite distante....



 Escrito por Mauro Cassane às 17h44
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Seus olhos

Vi seus olhos numa manhã perfeita

Os vi pela primeira vez, pérolas raras

e silenciosas, como poesia de amor.

Nunca antes havia visto nada igual.

Um espelho delicado e misterioso.

Um quase beijo de alegria em minha face,

Ou um sinal dos deuses, um sinal que

inverteu meu destino trôpego, insano. 

Seus olhos, Pequeninha, falam mais que

ti, tão falantes que me calam quando os vejo.

E os vi em outras manhãs sagradas, e

os vi chorando, sorrindo, gritando, amando,

tristes, loucos, desejosos, puros, zelosos,

preocupados e indóceis. Os vi mirando

o horizonte debruçado sobre o mar prateado,

contemplando a preguiça do sol, procurando

as estrelas mais brilhantes, e me dizendo

“te amo” de soslaio.

Vi seus olhos se desviando dos meus, li

as cores neles projetadas, vi a saudade e sua

loucura apaixonada. Ah, meu amor, seus

olhos que tanto ainda me falam, dispensavam

palavras escritas ou até ditas, não precisavam

de imagem nem de nada, apenas brilhavam

feito mágicas esmeraldas, e tagarelavam comigo

o tempo todo, até mesmo distantes, lá estavam eles

me contando sobre a vida. Me despertando

para a simplicidade deste mundo sem fronteiras.

Por seu olhos, Pequeninha, vi minha vida passar

sem pressa, como se a morte fosse apenas um ponto

final numa interminável ode à alegria de se amar.

E é em seus olhos que penso sempre,

mesmo quando os meus se fecham, ou quando

os seus não encontro. 



 Escrito por Mauro Cassane às 14h22
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