Tão longe, tão perto


Nosso louco passeio pela praia

 

Duas da madrugada, saímos com uma turma, todos bêbados. O mar está ali, convidativo, meio nebuloso, do outro lado da rua. Resolvi não ir com minha roupa de gala, fui ao quarto, botei bermuda, queria andar largado. A Pequeninha foi do jeito que estava, linda com seu vestido negro, descalça, e seus cabelos com delicados adornos. Brilhava com seu sorriso, e seu olhar repleto de exuberante vida. Cheguei sozinho, lá estava ela com uma turma, uns cinco ou seis rapazes, outras quatro ou cinco garotas. Todos entornando mais champagne e vinho num quiosque de uma senhora que vendida também  cachaça e cervejas. Uma turma alegre, festiva, numa madrugada um pouco nebulosa de segunda-feira. Ninguém meteu-se na areia cinza, todos ficaram ali, no calçamento do quiosque, em volta de duas mesas coladas.

Cheguei e fiquei em pé, ao lado da Pequeninha e mais dois rapazes que, certamente, a paqueravam. Um eu conhecia, era meu amigo. O outro nunca vi, mas estava ali, todo sorriso, cheio de insinuações, com suas calças arregaçadas, camisa aberta e uma conversa non sense. Ela ria, sempre ri tão lindamente. O meu amigo era mais contido, nem sabia ao certo de meu amor por ela. O outro era mais ousado. Não importa. Ela não deu muita bola para nenhum. Foi eu chegar, ela largou o copo de plástico com cerveja sobre a mesa, pegou minha mão e me puxou para a praia. Eu sabia que ela faria isso. Fomos caminhando, bêbados de tudo, de vinho, de amor, de felicidade, pela praia cinza. Não vimos mais ninguém, o ruidoso grupo foi ficando para trás. E seguimos juntos, minha alegria era sentir a pele de sua mão presa na minha, aquela maciez, e ela nem falava, mas estava feliz. Sempre ficava feliz ao caminhar pelo mar. Eu sabia disso, e me sentia duplamente feliz: por estar em contato com o mar, e por estar segurando aquela mão angelical.

O barulhento grupo era agora só uma luzinha acesa lá atrás. Ela brincava comigo, corria em minha volta, eu a abraçava. A gente se beijava, queria atirá-la ao mar e dar aquele beijo de cinema. Seria piegas, e acho que ela brigaria comigo. Não o fiz. Mas peguei-a no colo. Brincamos mais ainda. Ela perdeu um brinco e não achamos. Ela ficou brava com isso. Mas ria logo em seguida. Me deu o brinco restante, guardei no bolso. Ela me puxava, fazia riscos na areia com seus dedos do pé. Rodopiava. Um pequeno traço de lua no céu  jogava uma tímida luz na areia e nas ondas, apenas as cristas das ondas cintilavam numa luminosidade tênue. Nesses momentos eu acreditava em milagre, “ora veja como um milagre existe”, eu pensava comigo. “Hei, eu te amo”, ela me disse, com voz engraçada, meio engasgada de bêbada, mas disse com uma ternura delicada, profunda. Olhou pra mim, com todo aquele olhar de musa, de minha deusa, de meu amor, e me beijou. Fizemos um retorno num ponto qualquer, andamos de volta, em círculos, para demorar mais. Ela molhava os pés, dava pequenos chutes na água e espirrava em mim, sentia aquelas gotas frias em meu corpo, mas pareciam pérolas atiradas por ela, por seus pés. Estava morrendo de canseira, sono e bebedeira, e pensava na música de Cazuza, aquela que diz que a gente deveria conseguir congelar alguns momentos especiais de nossa vida. Eu congelaria esse, ela me dizendo “hei, eu te amo”. O “hei” foi para me chamar, para eu olhar para ela, e ela adorava isso. E o “eu te amo” era apenas para coroar aquele lírico momento só nosso. Exclusivamente nosso, tão sós que estávamos, tão penetrantemente a sós com nossas almas gêmeas e loucas de amor.



 Escrito por Mauro Cassane às 18h24
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continuação...

Voltamos ao encontro da galera. Todos ainda lá, o rapaz estranho que a paquerava logo se aproximou. Não deu muita bola ao fato dela voltar comigo, chamou ela pra conversar. Puxou assunto, qualquer bobagem. Ela sempre aceitava conversar. Eu me afastei um pouco. Queria mesmo ir embora, seguir em frente com ela até o quarto. Mas ela parou. Outro chegou, e pediram mais bebida. A magia parecia terminar ali. Queria continuar, mas dois boçais frearam tudo ali. Me aproximo e digo com veemência “vou sair fora, to com sono”. Ela sorri, “fica mais um pouco, ele vai contar uma piada”. Pensei “ora, foda-se a piada deste imbecil”. Claro que era ciúmes do mais puro e vil, mas eu queria seguir com ela. Fiz o papel de chato. “Olha, se quiser ficar, que fique, eu vou sair fora”. E ela, o de boa moça “eu já vou, mas antes vou terminar esse copo aqui”. Os dois ficaram me olhando como se quisessem me matar. E acho que queriam mesmo. Não me importei. Fiquei olhando pra ela, com cara de quem diz “bebe logo isso”. Ela não se importou, bebeu normalmente, e ainda pediu pro cabeludo contar a tal piada. Fiquei de longe. Ele demorou a contar, mas enfim contou. Pediu para a velhinha encher o copo dela de novo. Eu disse para não encher. De novo, o chato. Estava puto, queria socar a cara do cabeludo e não queria que ela bebesse mais. Ela fez cara de mal-humorada e disse “é, vou embora”.

Mas eles decidiram ir embora com a gente. Fomos os quatro embora. E eu segui mais na frente. O filho da puta do cabeludo ao lado dela. Entramos todos no casarão antigo. O meu amigo puxando papo, nem lembro o assunto. E o maldito cabeludo a meia dúzia de passos atrás de mim, conversando baixo com ela. Eu me esforçava para ouvi-los mas não os ouvia. Em um momento eu não vi, mas senti que ele a puxou pelo braço. Mas ela desvencilhou-se dele, não sei como, nem quis saber. Me livrei do meu amigo. Ela seguiu atrás de mim. Entramos no quarto. Eu estava puto de ciúmes, pois achava que o cara a tinha beijado, mas bêbado de amor e não queria discutir. Ela estava puta comigo, e também bêbada de amor. E nos amamos até o dia amanhecer, mas ela tinha que trabalhar logo cedo. Se trocou em minutos no raiar do dia. Eu fiquei na cama vagabundeando. Ela me beijou a boca, estava inteira com meu cheiro, e disse “até mais tarde”. Virei para o lado, não conseguia mais dormir, queria que o mais tarde chegasse logo e não acabasse nunca mais.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Mauro Cassane às 18h23
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Antes de dormir, um pensamento...

Essa será a última noite de Páscoa que passo sem você.

E não rias, nem duvides. Pois em seu aniversário, eu te

beijarei. Nem fujas, que te encontrarei. Tampouco ouses

te ferir, que te curarei. Passo mais essa noite na solidão,

mas tu perderás as contas em que, em meus braços,

debruçarás toda sua louca paixão. O tempo ainda correrá

errante, feito um pobre ébrio, e os sombrios delírios de

sua liberdade ainda abrirão fossas profundas em minha

alma esquecida bem no fundo de seu baú. Mas te beijarei

ainda neste lindo sonho quando o verão chegar. E você me

 abraçará tão forte e descobrirá que por nenhuma sorte deste

mundo poderás ser feliz sem me amar. E caminharemos tão

próximo, que seu perfume se confundirá com o meu. Não

saberemos mais o que é separação, e saudade será apenas

uma doce sensação de algumas poucas horas curada por

longos beijos. Apenas uma amarga lembrança nos servirá

de alerta para um tempo em que  morri, e tu, ainda

que sentistes tanta vida e felicidade, não sabias como

sufocar o silencioso choro de seu coração.

  



 Escrito por Mauro Cassane às 18h32
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Uma conversa com um velho e sujo amigo...

O que é o amor senão um viciante sofrimento. O amor correspondido, desse que se vê em livros, filmes e novelas, aí sim, deve ser algo cuja delícia seja quase indescritível. Se o meu fosse uma via de duas mãos, com certeza, não me sentiria hábil o suficiente para descrever tanta felicidade. Vivi isso em uma brevidade de minha vida, e talvez tenha sido minha volátil dose de contentamento nesta existência. Algo como “sinta o suave gosto deste divino néctar, e vomite agora seu fel para sempre”.

Estou farto de sofrer, talvez nem seja esse o termo mais adequado, não importa muito, mas creio que estou, na verdade, demasiadamente cansado. Queria conquistar meu amor para sempre, todos os dias, mas farejo um discreto desprezo por mim. Lá está ela, bem ao lado daquela linda fonte, passeando com sua amiga, e sempre sorrindo. Incrível como sente-se feliz ali, sem nunca mais ter me visto.  Aqui estou eu, parado no trânsito, com os olhos vidrados, hipnotizado em meus pensamentos, numa conversa muda com o bom e velho Tietê bem ao meu lado, fétido e terminalmente doente, arrastando toda tristeza desta Sampa para as pradarias do Sul.

O Sena requebra-se todo, esbanjando sua água pastosa e limpeza postiça mas nem mete inveja no Tietê. Isso ele me conta, pois limpa-se sozinho, chacoalha a sujeira toda no caminho, se sacode, e ganha vida, como um fênix. Ah, velho rio, massacrado por sua gente, um heróico e destemido sobrevivente. Como é bom um dedinho de prosa contigo. Esse maldito trânsito da marginal tem essa vantagem, me permite um momento de bom papo contigo. Eu também carrego um pesado fardo, meu bom amigo, mas acho que sou tão covarde e fresco como o Sena, que precisa da proteção dos homens, e não tenho a sua valentia.

Os carros seguem adiante. A escuridão da água negra reflete, como um espelho mágico, alguns traços laranjas com tons cinzas do céu. Meu amigo imundo, esse aquoso mendigo de Sampa, ganha uma vestimenta mais psicodélica, multicolorida. As barcaças sujas singram por ele, indiferentes, cavam suas entranhas, espalham o lixo dos paulistanos pelas margens, exibem todo aquele cruel adorno para nós mesmo. É tudo nosso: pneus, cadáveres, latas, plásticos, lama, merda. Nada disso pertence ao meu velho amigo Tietê, que nasce sorrindo, mas cruza São Paulo, mesmo ferido, com orgulho e em respeitoso silêncio. Se nega a morrer, mas não se furta a ensinar quem, com ele, quer aprender.  



 Escrito por Mauro Cassane às 10h59
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O beijo que nunca acabou

Sim, o beijo. Na sua boca úmida, com aquele gosto de maçã verde. É o beijo. Do primeiro ao derradeiro, todos eles foram um só. Aos pedaços, em episódios, violentas súplicas de meu amor insano. O beijo, ah seu beijo, no gosto, no tato, na emoção, o paroxismo soberbo de nossa paixão. Na minha mão em seu rosto de pêssego, no balé de suas pálpebras, nos contornos de sua face, nas investidas de sua língua. Sim, o beijo que começou numa pequena e velha cama de solteiro, num hotel lá longe, e terminou com uma melancólica despedida, horas antes de um grande salto sobre a imensidão azul. Ele, tão puro e verdadeiro, tão faceiro e sensual, tão honesto e carinhoso, tão puto e imoral. Esse longo beijo de sorriso, de tesão, de bom dia, boa noite, de oi, ou até mais tarde, foi meu guia e companheiro, minha luz e escuridão. Ah, meu amor, o beijo. Sim, o beijo. Pela manhã, pela tarde, na madrugada, na alta noite, na calçada, no carro, no cinema, no bar, escondido, às claras, no mercado, ou no lombo de um cavalo, ah, que beijo. E aquele na praia, na areia, sobre as pedras, sob a cachoeira, na montanha, na gruta fria, na caçamba, sob a chuva, no sol com sono, o de luar, aquele atirado com as mãos e também um outro, tão fugaz, de boa sorte. Que beijo, Pequeninha. Todos eles, apenas um. Sem-vergonha, endiabrado, adocicado, pedindo desculpas, de gratidão, de solidariedade, de carinho, compaixão. Sim, o beijo, meu amor. De todos que se dão, assim, por aí, não trocaria sequer por aquele que lhe atirei com a palma de minha mão.  Sim, o beijo, que me destes, ainda o sinto, com todo seu sabor e louco amor. Sinto sua textura, seu calor, sua formosura, sua ternura. Sinto-o ao vento agora, ou quando vejo o mar, ou piso na areia, ou caminho na margem do rio. Sinto-o passeando com os olhos tristes pela janela de meu carro, no céu alaranjado, no cheiro de terra com chuva. Sinto-o, assim, do nada, sinto-o, ainda, assim, em tudo. Apenas um beijo, sim, um beijo que nunca acabou!



 Escrito por Mauro Cassane às 14h47
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Ah como é difícil agradecer um bom amigo...

Hoje o corpo arde em febre, que vem de dores musculares generalizadas e o vírus continua firme em seu propósito de me exaurir qualquer espécie de vontade. Comecei a escrever um soneto, fiz quatro versos, depois mais quatro, aí veio mais três e, derradeiro verso, parei. Alguma coisa dentro de mim me disse "pare, não termine esse soneto". Nunca aconteceu isso antes e eu obedeci essa voz interior sei lá porque razão também, acho que por me sentir debilitado, creio que a gente fique mais obediente quando estamos fracos, sem muita saúde. Meio débeis. Enfim, pensei que estaria melhor, mas estou pior. Dor no corpo, essa coisa física, aliada às dores mais metafísicas, no coração, junta tudo, e pronto, eis um homem desprezível para o convívio social. Alguns amigos estão marcando de ir a um pub nesta semana, dizem que será divertido, com muitas mulheres lindas e tudo mais. Não tenho vontade. Ultimamente só tenho vontade de ler e escrever, e a febre está me assustando pois ando interessado agora, na vedade, em dormir apenas. Mas sou insone, e custo a dormir, e fico pensando coisas acordado, penso na vida, e no amor que poderia estar comigo, em carinhos e essas coisas. E isso tudo me deixa ainda mais acordado, e triste.

Estive pensando agora, as pessoas são mais gratas a estranhos do que àqueles que as amam. É verdade. A gente é capaz de agradecer uma gentileza de um qualquer na rua, mas muitas vezes somos incapazes de abraçar um bom amigo que nos ajudou em alguma coisa importante. Curioso isso. A gente também faz algo para a pessoa que ama, com amor, com afeto, mas o ser amado acha defeitos. Não sei, mas começo a crer que, quanto mais amamos alguém, mais esse alguém nos trata como lixo, ou algo descartável. É muito difícil dizer "hei, meu amor, muito obrigado". Mas é simples sorrir e agradecer um estranho qualquer só por ter feito uma coisa qualquer como nos abrir uma porcaria de uma porta. Não que seja tolo ser simpático com estranhos, mas acho cruel ser duro com aquelas pessoas que nos amam, que nos querem bem, como amigos, pais ou marido, namorado, noivo. Vou tomar mais novalgina, um soneto sem terminar é um sintoma grave.



 Escrito por Mauro Cassane às 14h23
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Capítulo um, não sei ainda o dois...acho que não tem...

 

Então é isso. Morri no final. Pronto, assim poupo vocês de lerem essas memórias. Tolices, tudo tolices. A gente tem mania de achar que nossa história é a melhor, ou a mais curiosa, ou a mais louca. Que nada. Morremos no final, sempre. Toda história tem lá seu lado louco, e tolo também. Vamos ser sinceros logo de início neste livro. Assim, quem não está disposto e seguir em frente, pode parar por aqui mesmo. Pois nos próximos parágrafos, páginas, capítulos e tudo mais, vou discorrer, obviamente iniciando com um salto de anos que antecederam minha morte, sobre minha história de amor. Ah, sim, toda história, tem amor. Por isso que aviso mais uma vez, para depois ninguém reclamar, é tudo muito comum. Já está, porém, bem avisado. Eu não leria esse livro, e depois que li uma porção de livros, acho que perdi a vontade de ler qualquer outro. Então, agora é sério, pare de ler isso tudo. Não vale à pena, não perca seu tempo. E também não tenho qualquer outra leitura a lhe indicar. Tente escrever. Kafka fazia isso, não tendo nada interessante a ler, ele escrevia o que gostaria de ler. Se bem que, pensando bem, e isso me ocorreu neste exato segundo, há algumas idiossincrasias (olha que palavra mais faceira essa) a respeito de meu amor que merecem, de fato, um tratamento mais romanceado. Mas, veja bem, não precisa acompanhar todas as páginas do livro, pode pular alguns capítulos, eu prometo que vou informar os capítulos que serão meras viagens minhas e, portanto, descartáveis para a compreensão da história. Acho legal ser sincero. Já li livros enormes, mais de 500 páginas que, como editor, eu extirparia pelos menos umas 200. E estou falando de clássicos da literatura. Por isso que vou ser bem franco neste livro, nos capítulos em que eu for simplesmente escrever para mim, eu deixarei a mensagem, logo de início, “pode pular esse capítulo”. Neste caso, se você o ler, faça-o por sua conta e risco, mas já aviso agora que é descartável mesmo. Aliás, exceção feita aos romances policiais, você pode ler bons livros pulando 10 ou 20 páginas. Não fazem falta alguma. Nossa, que heresia! Mas tem gente que faz pior: lê de trás para frente. Outros, só as 20 primeiras páginas. Então, neste meu, pode parar por aqui mesmo. Nem precisa ir até à pagina 20. Eu morro no final. Agora só de sacanagem, vou contar uma coisa, nessa porra de vida, todo mundo morre no final. E tem mais, só para estragar prazeres mesmo, tanto todos os humanos vivos, assim como aqueles que já foram, têm e tiveram, todos, uma porcaria de vida muito comum. Artistas, cientistas, atores e toda essa fauna metida a besta, sinceramente? Tudo um tedioso lugar-comum bem banal. A gente morre no final, ama, chora, foge, muda, volta, se frustra, trabalha, ganha grana, gasta, bebe, faz merda, pede perdão, depois faz merda de novo, chora de novo, fica puto, diz que ninguém nos entende, depois envelhecemos na hora seguinte e nem notamos e muitas vezes nem sabemos direito quem somos diante do espelho. As cidades são todas iguais, cheirando a gente. E os cemitérios também, umas chatices: colocam campas clássicas, ou jardins, ou lápides, ou cruzes. Tudo igual, um bando de gente enterrada. Todos eles morreram no final. Já ouvi e li, acho que muitas centenas de vezes, jovens cunhando a seguinte expressão: “nem eu me entendo direito”. Ah, vai à merda. E eu disse isso também nos meus vinte anos. Achava rebeldia. Ainda bem que a gente morre no final.      



 Escrito por Mauro Cassane às 01h09
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