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Eu te quero, Pequeninha. Mais do que qualquer outra coisa, te quero. Não é um querer que encarcere sua liberdade pois és livre feito um pássaro selvagem. E te amo assim. Quero você, nas noites alucinadas, nas voltas ao mundo, na terra, na água. Quero somente você. A ti serei fiel, a ti dedicarei amor eterno. É você que amo. Todos os dias tento sufocar esse amor, todos os dias ele me sufoca vencedor. Queria eu te amar um pouco menos, e a cada minuto ele se engrandece com mais fúria nem se importando com a dor que impõe a mim. Hoje luto contra esse amor, mas queria tanto lutar por ti. Sim, eu te quero. Tão simples. Mas não a tenho.
Escrito por Mauro Cassane às 23h08
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Sonhos
Seu eu soubesse pintar, meu amor, faria quadros
de ti, de nossos momentos lúdicos, oníricos, loucos.
Se soubesse esculpir, minha deusa, talharia em
pedra e madeira, suas formas, seus sorrisos...
Se soubesse compor, faria todos os dias canções
de amor, me dedicaria à uma sinfonia, e atravessaria
os dias elaborando uma ópera, dessas com tenor
e sopranos, violinos e decanos mestres nos tambores
Se arquiteto fosse, planejaria uma obra sem igual
Desenharia o chão em dimensões surreal, as
paredes que lembrassem suas curvas, e o teto
sua cabeça de idéias tão libertárias, revolucionárias
Ah, poderia ser cineasta também, faria um épico
de vanguarda, mostrando-te, Pequeninha, como
Beatrice Dalle em Betty Blue, com diálogos e tórridas
cenas sensuais comigo mesmo como ator
Mas sou apenas um pobre escritor, jornalista e sonhador
que queria ser tudo isso só para aliviar um pouco
minhas estúpida saudade, minha louca vontade de te ver, te abraçar, te cuidar, beijar e te encher de amor...
Escrito por Mauro Cassane às 11h39
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Tudo de ti Pequeninha, meu amor...
Isto tudo está em mim, assim atado,
vertiginosamente ungido de amor imortal,
e tanto amor, separado por ingrata distância,
enforcado no tempo, torturado pela esperança,
refresca-se nas lembranças de seu corpo Pequeninha,
de seu frescor, suas místicas fragrâncias cítricas,
sua doçura ingênua, sua fala de menina, seu tesão,
e poros arrepiados. De seu corpo, como meu altar
mais sagrado, quero cantar. Imagine a música agora
meu amor, qualquer uma que gostes, e me permita
relatar, apenas para não me sufocar, a encantadora
ternura de suas peças instigantes, fascinantes, oníricas...
Escrito por Mauro Cassane às 12h05
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continuação...
Assim, de bruços, a percorro com meus olhos embriagados. Deitada, me ignoras, mas sentes minha paixão debruçada sobre suas costas. Primeiro os seus pés, pares simétricos, com a poeira do mundo sob a sola marcada por barro, madeira, areias. Os cinco dedos, comprimidos, se curvam timidamente, exibem suas dobrinhas, e quase escondem as unhas. Um dia fez um desenho, um adorno selvagem, e esses pés eu toquei e beijei. Então vem a canela, firme e resoluta, como vigas de sustentação, a deixa segura e sã, esquenta seus passos, e quantas vezes a toquei. Me exibes o joelho, oras ali estampas marcas de uma infância de moleque, correndo e pulando, caindo e se ferindo, mas rindo com paixão. São machucados já curados que adornam suas pernas,
me contam sua história e te vejo menininha.
Subo por suas coxas, símbolos de meu tesão mais animal, fascinantes por seus músculos, contornos tão perfeitos, textura de algodão. Percorro seus quadris, que se exibem só para mim, na pia, no banho, na cama, na estante de madeira. Por tantas vezes o apertei, me viciando em seu amor. De sua bunda nada digo, guardo comigo as sensações. Mas não me contenho e tenho que sussurrar que aperta-las era quase uma prece de carinho e loucura. Vou subindo assim te lendo, puxando todo ar de seus perfumes, o cheiro quente de seu suor, o vigoroso tom de ferro e madeira, e a suavidade das laranjas do campo. Me deparo com sua cintura, esculpida em Vênus pelas ninfas mais diabólicas, e que vi dançando, andando, rebolando. Não, pulo essa parte, para poder escrever um pouco mais. E suas costas, quanta poesia, há uma perfeita geografia, com pintas feito ilhas num oceano assim tão puro, e um ramalhete estilizado jogado pelos deuses nesse mar.
Ali desde quando pela primeira vez te mirei, impregnei minhas mãos naquela harmoniosa textura, em massagens e carinhos, em abraços e desejos. Um pouco mais, ainda de bruços, vejo seu pescoço, alinhado, ereto e duro, protegido por espíritos mais selvagens. Vejo ali a lua cheia, a noite tensa e o mistério dos índios como se avistasse tudo isso num espelho da água no meio do deserto americano. Percorro com meus dedos, te alivio a tensão, desço um pouco mais em suas costas, flexiono seus nervos rijos, para retirar a sua dor. Então me detenho em seus braços, leves como asas de anjo, suaves e um pouco abstratos nos carinhos. Braços que conduzi pelos mais diversos caminhos, que segurei, apertei, massageei, carreguei, e tantas vezes me serviram de apoio, me tirando a dor, me fazendo amor.
Escrito por Mauro Cassane às 12h04
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continuação...
Mais um pouco sobre esses braços, seus pelinhos, e duro cotovelo, que me levam às suas mãos. Ah, as mãos. Macias, vigorosas, delicadas, violentas, cheias de história. Pequeninha, suas mãos, apenas elas, me fariam te amar até o fim de meus loucos dias. Poucas vezes as segurei, mas em todas as amei. Em seus dedos fiz meus primeiros carinhos, e no derradeiro momento, foram seus dedos que por último larguei. Então te viro assim suavemente, sem força, com cuidado, para que permaneças em seu sono, e me encanto com seu ventre que tanto beijei, e foi por ele, sob uma tempestade de beijos, que deslizei para nossa primeira noite de amor. Do umbigo para baixo minha boca decorou cada célula, brincou com cada poro. Para cima seu abdômen firme, os seios adocicados que me levavam ao céu e ao mar. Em seu peito sinto o vigoroso pulsar de sua vida, seu sangue de ferro e sua ama cigana. E chego enfim a seu rosto. Deus, seu rosto. Começo por seu queixo de boneca de porcelana, passeio por sua face de pêssego, e me encanto com as pelugens angelicais, com os tons entre o rosa e branco, e toda profusão de cores. Verde de mar caribenho. Lindo. Um narizinho todo delicado, pequenas sardas escondidas, duas covinhas que te adornam o sorriso. Dentes de menina levada, orelhas assim tão leves. Olhar que já decifrei. E tudo ali, tão perfeito, numa moldura capilar tão louca, rabiscada, solta, alucinada. Seus cabelos são seu mais fiel retrato: da voltas, muda, faz cachos, se rebelam, ficam mansos, irados, comportados, alucinados, voam, se embaraçam, mas ao sutil toque de meu carinho, adormecem, silenciosos, em minhas mãos....
Então te beijo a boca, para te despertar lentamente. Sinto seu calor, sua magia, e o louco sabor de sua saliva quente. Nesse beijo matinal, o primeiro dos muitos do dia, absorvo seus sonhos como pães que saem da fornalha. É assim que te amo Pequeninha. E por tudo isso que sempre vou te amar.
Escrito por Mauro Cassane às 12h03
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Deus, desculpe, mas precisava te escrever...
Muito bem, desculpe me dirigir assim ao senhor. Principalmente neste momento peculiar, onde a santa igreja encontra-se momentaneamente órfã, e há milhares de almas rezando pedindo o óbvio: um novo papa. Fico imaginando como o senhor faz para compreender milhares de vozes de tão diversas línguas falando contigo tudo ao mesmo tempo. Por isso que resolvi te escrever. Como o Senhor sabe tudo, deve saber que não sou o que poderia se classificar de católico, e acho que a última vez que fui a uma missa eu ainda era virgem. Mas, confesso senhor Deus, eu tenho fé, e creio em ti.
Partindo deste princípio, e desculpe pelos preâmbulos, sei que tens muitos afazeres, resolvi lhe escrever essa missiva. O que quero é bem simples. Estou sofrendo por amor. Sim, Deus, é isso. E refleti demoradamente sobre esse tema e desconfio seriamente que a culpa é toda sua. Eu nunca imaginei que alguém pudesse sofrer por amor. Sempre pensei que, ao contrário disso, a gente fosse feliz amando. Assim, simples, ao amar, nos tornaríamos feliz. E, por conta disso, fiz uma peregrinação louca pelo tempo e o espaço que o Senhor mesmo concedeu ao mundo em busca deste amor. Até que um dia, numa manhã fresca, que o Senhor também me ofereceu, senti esse amor na pele, na alma, no peito, nos pés. Enfim, em todas as partes desse corpo que o Senhor mesmo me deu.
Porra, Deus (desculpe pelos palavrões, mas não consigo evitá-los quando fico puto), daí quando eu senti amor eu o demonstrei. E lutei para ser amado. E, depois de um tempo, e creio que com um empurrãozinho seu, fui correspondido. Acho que naquela época eu te pedi para ser correspondido. Não foi? Creio que sim. E o Senhor me atendeu. Mas o amor, eu sei, e o senhor também, exige muitas coisas. Manutenção, abdicações e, o mais difícil, a transposição de grandes barreiras como se fosse uma preparação para a consagração deste amor. É isso? Não sei, eu penso que sim. Mas é? Tá, o Senhor nunca responde né? Muito bem, acho que é isso. O fato é que, quando venci todos os obstáculos, e isso demandou um certo tempo, ela se foi. E, desculpe, o Senhor sabe disso, pois é onipresente, te xinguei um bocado. E xinguei o diabo também. Foda-se. Não sabia qual dos dois era o culpado. Na verdade o Senhor bem sabe que aquela reação, com lágrimas e tudo mais, era uma paroxismo da grande tristeza que se abateu sobre mim. E por isso deve ter me perdoado. Pelo menos o Senhor perdoa. A maioria dos humanos não age assim.
Não vou fazer rodeios, pois sei de suas ocupações com essa porra de mundo cheio de gente estúpida. Se bem que, desculpe a franqueza, mas acho sinceramente que a estupidez foi o Senhor mesmo que deu a elas. E por isso que acontece tantas merdas. Talvez tudo tenha uma razão né? Como sou meio burro nesses assuntos, não vou me meter. Nem discutir com o Senhor. Meu pleito, caro Senhor, é um pequeno milagre a meu favor. Nada de grande vulto. Queria apenas que o senhor tirasse um pouco desse amor de mim. Ou, se assim quiser, que faça que ele seja correspondido. Porra, meu Deus, não queria nada além de ser amado também. De que me serve esse amor todo enfiado em mim? Só me serve para sofrer. Me serve também para me deixar cego e, claro, para me deixar improdutivo e desmotivado com a vida. Acho que o Senhor nunca tinha considerado isso, não é? Faz a gente sentir um puta amor grande, e esquece de que, pra ser bom, tem que ser correspondido puta merda.
Que pecado eu cometi, de tão grave, que mereço isso? Meu castigo, cruel por sinal, é ser condenado a amar um monte e não ser amado pela minha amada? Ah, Deus, na boa, que grande sacanagem. Depois a gente tenta tratar com o diabo e o Senhor fica todo puto. Eu não vou me arvorar a te ensinar nada, oras quem sou eu, mas penso que o Senhor perde muito com esses deslizes. E aí fica essa turma de gente à mercê do sete peles que prega a vulgaridade, o desamor, que elege o tesão em detrimento da paixão verdadeira. Certos prazeres são bons, mas dura pouco. O que me deixa mais fodido da vida, Senhor, é que todo dia sinto mais e mais amor por aquela desalmada. Bem, desculpe, ela tem uma alma linda. Ela não tem culpa nenhuma. Ela é maravilhosa. Olha aí, tá vendo Deus, só de pensar nela já fico todo derretido. Tá, já entendi, tudo tem um motivo né? O tempo não é nada, né? Eu posso esperar e vou me dar bem, é isso? Quer saber, o tempo não é nada pro Senhor, que tá aí desde não sei lá quando. Mas pra mim é, porra. Se o Senhor me matar antes de eu realmente viver esse grande amor vou ficar tão puto que vou fazer a maior revolução aí no céu. E não adianta me enviar para o inferno, já vou logo avisando, pois o diabo não vai aceitar uma alma entupida de amor. Eu não tenho como entrar no inferno. Eu não acho correto pressioná-lo diante de tantas coisas importantes a se resolver no mundo. Mas o Senhor deve fazer algo, oras bolas! E, quer saber, já que eu creio que o Senhor vai mesmo fazer alguma coisa, dá uma forcinha vai meu Deus. Não me deixe seguir sem ela...
Obrigado
P.S. – Uma sugestão, distribua uma gotinha do amor que sinto por ela para cada ser humano do planeta. Só uma gotinha. Acho que isso poderá evitar tantas encrencas. As pessoas se olharão com mais ternura. Faça isso, vai meu Deus. Tá sobrando amor aqui, e é um recurso que se renova e se amplia todos os dias. E tá tudo aqui, parado em mim. Sem muito proveito por enquanto.
Escrito por Mauro Cassane às 11h46
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Das coisas que vão, das coisas que voltam
Eu te sinto,
sim te sinto, tesa,
firme, louca, te sinto
sem te sentir, te sinto
sem te ver, tocar, nem nada
Te sinto na madrugada, na cama,
lá fora, lendo, comendo, bebendo,
te sinto ao anoitecer, dormindo, insone,
escrevendo, doente, triste, te sinto longe, sinto
sua distância, sua desvontade, seu desamor, desafeto
dessaudade, descarinho, desternura, descuidado, e o telefone desligado...
Mas, minha doce Pequeninha, eis aqui o meu amor desmiolado,
desfigurado com tantos golpes de suas lâminas tão afiadas
alquebrado, todo doído, lambendo suas feridas cruentas
Me debruço sobre ele, com pesar dessa miserável dor
e ouço sua voz ainda e a quero mesmo e tanto assim
esqueço sua furiosa indiferença, penso no lirismo
e na ternura daqueles momentos só pra mim
quando te via ali sentada, com suas letras
suas pausas, seus olhares brilhantes
te fazia um carinho escondido
massagem delicada e suave
sentia o perfume de pele
um apache no luar
cílios bem juntos
silêncio maduro
amor calado
tudo puro
Ainda te sinto meu amor
Ainda te sinto
Ainda te amo
Escrito por Mauro Cassane às 18h35
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Madeira, ferro e a suavidade cítrica da laranja
A noite começou a descer silenciosa. Ao ver o céu tomar o tom cinza escuro me dá a sensação gostosa de uma lembrança de infância. A de ser coberto, na cama, quando criança, pela mãe. Lembrei das vezes que fiz isso com meu amor. Puro carinho. Saia da cama pela manhã e a cobria, para que ela não passasse frio. Antes de ir trabalhar a beijava, e tinha a mania de conferir se ela realmente estava confortavelmente coberta. Sentia seu cheiro matinal, de pele e algodão, ficava com esse cheiro em mim ao longo do dia. Um gesto tão simples, cobri-la ao sair da cama, e com um significado tão forte para mim. O amor tem essas coisas, é construído por pequenos e singelos atos do cotidiano.
Um vento forte soprou com o manto noturno. Certamente viajou grandes distâncias até se arremessar contra meu corpo. Deve ter atravessado o mar. Estava com forte gosto de salitre. Mas trouxe consigo outros sabores olfativos: madeira, ferro, e o cítrico da laranja. Deve ter passado por velhos navios no porto e trouxe todas essas fragrâncias. Mas a união delas me lembrou uma pessoa, uma única pessoa. A mesma que costumava cobrir cedinho. Ela mesma.
Sai para caminhar um pouco. O mundo é perverso, muitas vezes nos deparamos com nossos egoístas conflitos, e nem nos importamos muito com os verdadeiros crimes. Andei pelas decadentes ruelas da periferia paulistana. Atravessei uma favela onde outrora ficavam casas de classe média. Agora os quintais largos abrigam barracos apertados. Tudo carcomido. Doente. À noite os tons escuros conferem uma melancolia por todos os cantos. Um cão morto na calçada esparrama a podridão da carne por todos os cantos. As pessoas ficam para fora. Panelas empurram suas gorduras também. Carniça e gordura pelo ar. E muito lixo. A cada cem metros um boteco de madeira, balcão e pinga, só isso. Sou sistematicamente observado. Atentamente. A gente ignora isso tudo. Mas não somos ignorados nunca. Minha cabeça não pensa em outra coisa senão em minhas mil e uma noite de amor intenso. Ninguém em sã consciência atravessaria aquela viela imunda. Eu não estava nem com a consciência nem com o coração assim tão sadios.
Me ocorreu um pensamento totalmente infantil. Queria dar um presente a meu amor. Juntaria numa cesta de vime lembranças de alguns beijos, de uma noite de vinho, de uma rolha que guardei, de um abraço apertado, de carinho no rosto de pêssego e trechos do filme O Carteiro e o Poeta. Acrescentaria uns versos do Neruda também. Tudo neste cesto de vime. E o soltaria no ar, assim como fazia quando soltava balões propelidos com o calor do fogo. Fruummm. Muitas vezes a gente vê nossos sonhos, os assite. Lá foi o cesto para o alto. Passou pelos telhados de zinco, ganhou altura na úmida noite da periferia. E se lançou rumo ao norte, firme, resoluto. Lancei uns beijos para ele, e esqueci de colocar o santinho para proteger minha amada tão distante. Acho que leva uns dias pra chegar até ela, mas chega. Eu expliquei o caminho. Que pensamento maluco. Ai me deu vontade de ligar pra ela. Mas nada que dois bons tapas na cara não me devolvessem à crua realidade.
Escrito por Mauro Cassane às 11h34
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Um novo remédio: tapa na cara!!!
Uma dor absurda no peito, dessas que parece que vamos morrer. O coração fica pulsando com mais força, parecendo buscar a derradeira energia, um minuto a mais de sobrevida. Queria tanto algo, mas o algo que tanto quero simplesmente não acontece. Penso na canção do Ira “e quem eu quero está longe, longe de mim”. Parece que vou morrer hoje com essa dor no peito. Mas creio que vou sobreviver. Sou dramático demais. Na verdade eu queria uma boa notícia, queria uma coisa especial, talvez um presente dela, um cartão. Mas o correio não me trouxe nada. E nunca trará. E acho que não vou morrer, pois agora, escrevendo, meu coração parece se tranqüilizar um pouco. Até respiro melhor.
Fiz uma viagem a uma fantasmagórica cidade de Minas Gerais. Lá estava eu, sozinho, vendo quase ninguém. Alguns aposentados, crianças e umas moças bonitas da cidade. E mais nada. Me sentia tão absolutamente decrépito e triste que caminhei sem rumo por horas pelas ruas bucólicas e decadentes. Fui jantar sozinho, tomei meio vinho, comi pouco. E fiquei ali, na mesa com toalha vermelha quadriculada, olhando os quadradinhos vermelhos e brancos. Numa mesa próxima uma senhora de uns 55 anos, bem apessoada, jantava com uma moça de uns 30 anos. Notei as duas ao me servir mais vinho. Eram lindas. A senhora com seus adornos todos, tinha um penteado impecável de senhora mesmo. Discreta e elegante, não parava de falar. A moça, mais despojada, ouvia mas percorria todo o sinistro restaurante italiano com os olhos. Não tinha muito o que ver naquele lugar meio escuro e triste. Eu estava entretido com os quadradinhos da toalha de minha mesa. E havia mais umas três mesas com pessoas desinteressantes. Quase fantasmas. A moça me olhou, notei isso. E deve ter falado algo para a senhora, que fez uma certa cerimônia e me lançou um olhar bem discreto, tipo educadamente disfarçado.
Acho que estranharam um cara sozinho bebendo e com o prato pela metade e olhando feito um louco para a toalha. Minhas opções para observar algo eram quase nenhuma. Se tivesse alguém para bater papo seria melhor. Mas não havia ninguém. Ou olhava para a velha toalha, ou para as duas mulheres bem à minha frente. Olhei algumas vezes. Não tinha mais fome. A mais jovem me lançou um sorriso gostoso, daqueles que só as pessoas que se conhecem e gostam da gente fazem. Eu sorri de volta. Com meu sorriso foi uma série de outras coisas fantasiosas. Minha carência afetiva já me fez imaginá-la transando comigo. Eu podia ver o corpo da moça. Era perfeito. Morena, cabelos negros e lisos, uma saia de seda multicolorida um pouco acima do joelho. Coxas firmes, bronzeadas. Uma sandália de couro cru, e uma blusinha solta exibindo seus ombros e um pouco de seus seios fartos e firmes. Um conjunto bonito mesmo. E com um sorriso daqueles de propaganda de pasta de dente. Bem branco, dentes simétricos.
O meu jantar esfriava no prato. O vinho era minha ternura naquela hora. A moça me parecia decidida a investir em mim. Fiquei lisonjeado com isso. Há meses me sinto um traste humano. Quando a gente ama demasiadamente alguém esquece até de nos amar. Há muito tempo não transo e fiquei ali excitado com aquela morena linda me paquerando tão abertamente. Ela prestava atenção em meus movimentos. E eu mesmo não fazia isso comigo. Há tempos não prestava atenção em mim. Me sentia um derrotado. Daí o som ambiente me fez um favor especial. Tocou clássicos do rock na voz de Émerson Nogueira. Uma melancolia absurda tomou conta de mim novamente. Pensei em momentos felizes ao lado de meu amor. De abraços apertados, de carinhos trocados, de promessas de amor. As lembranças vieram todas, como numa enxurrada vertiginosa. Não via mais a garota linda na minha frente, nem seu sorriso nem nada. Apenas aquelas covinhas e aqueles brilhantes olhos que um dia me disseram “eu te amo”.
Paguei a conta e sai do restaurante. Nem me lembrei de olhar a morena que me paquerava. Sai pensando em meu amor. Do mesmo jeito que entrei. Pensando nela. Fui ao quarto do hotel e fiquei ali, na solidão embolorada, repassando meus momentos com a Pequeninha. Anos de amor louco, insano, angelical. No dia seguinte meu carro flutuava pela estrada. No rádio tocou Ben Harper, “She has dimons inside”. Lembro dela. Liguei na hora e ela me diz que queria ler. Era o que eu precisa mesmo ouvir. Ela queria ler. Estava cansada e nem um pouco afins de falar comigo. Quando a gente ama muito a gente esquece de se amar. Mas os reiterados foda-se dela ao meu amor me serviram para me lembrar de uma coisa importante: eu preciso me amar. Daí lembrei do olhar da morena que se foi. Que nem sequer vi depois das músicas que me lembraram da Pequeninha. Hoje me olho no espelho e vejo um homem razoavelmente interessante. Sim, havia me esquecido há tempos, não sou de se jogar fora não. Porra, fiquei ali, peladão, na frente do espelho. Tinha me esquecido completamente de mim. Só pensava nela. Só pensava na beleza dela. Esqueci de minha beleza. E agora, depois do foda-se dela, me vi melhor. Ali estava eu, boa forma, boa simetria, refletido no espelho. Eu mesmo. Sem ela me achava um lixo. Me humilhei e tudo mais por um amor, me diminui. Mas não, agora, talvez acordado de um prolongado suicídio, eu me via ali, no espelho. E a morena da cidade fantasmagórica também havia me visto. Porra, não sou um lixo. Que bom.
Resolvi fazer uma promessa estúpida a mim mesmo: cada vez que tiver vontade de ligar para ela vou me esbofetear. Não sei se vai dar resultado. Já me apliquei algumas bofetadas de ontem para hoje. Dói pra cacete. Bato forte. Sem dó mesmo. Nunca antes havia esbofeteado alguém. Fiz isso comigo agora. Ontem uma vez. Hoje mais duas. Deu vontade de ligar, eu sento o braço na minha cara. No trânsito, agora há pouco, foi engraçado. Um sujeito me flagrou neste momento louco, logo depois do tapão. Me deu vontade de ligar, aí plaft, larguei um tapaço na minha cara. O cara ficou com olhar atônito. Assustado. Eu ri. Achei engraçado. Com a cara quente e vermelha. Me senti como aquele idiota do filme “Clube da Luta”. Mas a dor do tapa nem chega perto à terrível dor da indiferença.
Escrito por Mauro Cassane às 14h31
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João Paulo II e Jon Bon Jovi...Bed of Roses...
Entre a infindável cobertura jornalística sobre a morte do papa, e depois de já saber a vida de trás pra frente do mortal Karol Wojtyla, que virou, no Brasil, o imortal João de Deus, busco algum canal televisivo com alguma outra coisa. Mesmo não sendo católico, nem nada, admiro demais o Papa João Paulo II, por tudo que ele representou para a humanidade. E, principalmente, pelo fato cabalístico de ele ter sido entronado em 1978. Em outubro. E morrer 26 anos depois. Numa primavera. Cometeu erros o Papa? Oras, quem não os comete. Creio que acertou mais que errou. Por isso tenho profundo respeito por ele.
Não queria mais ver os urubus da imprensa revirando a vida do bom homem Karol. Então fui mudando de canal. No que só passa filme, havia os mesmos e tediosos reprises. No canal de esportes a chatice monótona do futebol. E, então, parei em uma emissora que passa vídeo clip. Passava um clip do Jon Bon Jovi da música “Bed of Roses”. Estava entediado e fiquei prestando atenção na letra. Alguém já fez isso? Acho que sim, certamente sim. Minha musa deve saber todas as letras. O refrão da canção é simples. Traduzo: “eu queria deitá-la em uma cama de rosas, enquanto eu, sem ela, durmo numa cama de pregos”. Não dá para entender tudo, é claro, mas em outra estrofe o vocalista passa outra coisa que entendi muito bem: “hoje eu tenho uma amante, e não vou dormir sozinho, mas sem você, baby, eu continuo na solidão”. Depois, já mais para o fim do clip ele diz: “vou seguindo por meu caminho, mas sempre em direção à nossa casa”. E volta o refrão em que ele deixa claro que, se ela voltar, a colocará para deitar em uma cama de rosas. Não, eu entendi muito bem, não tem nada fúnebre nisso. É uma canção que conta a história de um amor que partiu e que ele a ama demasiadamente e que, mesmo com outras mulheres, se sente na solidão. Se ela voltar ele a colocará numa cama de rosas pois ele, sem ela, dorme numa cama de pregos.
Sim, o Papa morreu. A banda Engenheiros do Havaí, que nem gosto muito, fez uma canção bem apropriada para o Papa. Diz que ele é pop. É sim. Foi o Papa mais pop da história do mundo. Pregava o amor, era conservador em tantas outras coisas. Mas tudo bem. Não vão querer um Papa pop e, assim, tão liberal. Isso já seria demais. Há uma ligação entre a morte do Papa, em 26 anos de papado, e a música do Jon Bon Jovi. Não é nenhum segredo de Fátima, nem nada. Porém é algo muito peculiar ao meu coração. Mas coisas importantes aconteceram no mundo em 1978. E eu tinha 13 anos. Veja, número 13. O Papa foi eleito em outubro, um mês que aprendi a não gostar. Prefiro novembro, mas nasci no primeiro mês do ano. No último dia do primeiro mês do ano. O Papa morreu em abril. Exatamente seis meses depois de outubro. Morreu. Mas viveu como em uma Bed of Roses. Não vou me apropriar dessa música como um hit meu. Mas sim, a canção, hoje, pra mim, prestando a devida atenção na letra, me disse tantas coisas importantes. Enquanto estamos vivos, temos a graça e a magia de poder amar. Mesmo sofrendo por isso. Quando morremos, deixamos o amor melancolicamente como um legado. Se um dia eu ter meu amor de voltar pra mim eu a colocarei para deitar em uma Bed of Roses.
Escrito por Mauro Cassane às 22h30
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