Tão longe, tão perto


Um abraço

Foi me buscar no aeroporto. Chegou dirigindo meu carro velho, com sua saia curta, e minha primeira visão ao entrar, antes mesmo de beijá-la, foi aquele lindo par de coxas levemente separadas para que ela pudesse controlar os pedais de embreagem e aceleração. Essa separação sutil me encheu de tesão. Nos beijamos, ela estava estressada com o trânsito. Nem reparou no libido que causou em mim. Blasfemava contra os motoristas todos, os ônibus, as peruas, tudo mais. Estava linda, nem notava, mas estava linda.

Tinha que voltar ao trabalho. Já era tarde. Estava em dúvida entre voltar ou passar a noite comigo. Eu a desejava loucamente. Apenas dois dias longe dela, e não me agüentava de vontade de abraçá-la, beijá-la, sufocá-la de amor. Mas ela estava nervosa. Acho que aquela tensão antes da menstruação estava ali, feito um anjo mal, devorando suas entranhas. Ela bufava, e rangia os dentes. Mesmo assim, linda. Com sua testa franzida, com seus olhos semi-cerrados, as sobrancelhas arqueadas para dentro da face. Continuava deslumbrante. Aprendi que, nesses momentos, o melhor é não falar muito. Preferivelmente só responder algumas perguntas esparsas. Passei a mão nas cochas dela, e ela me ignorou. Mas senti a textura dos poros eriçados. O carro parou no farol vermelho, e o mundo todo de carros nos sufocaram naquele canto. Oprimidos, ela ficou ainda mais desesperadamente hostil com a cidade. A beijei ali mesmo. Pensei que fosse me morder. Mas senti todos seus rijos músculos deslizarem em relaxamento, me envolveu com seus braços, me laçou com seu corpo.  Me beijou com carinho, senti suas lágrimas feito orvalho hidratando meu rosto. Ficamos abraçados aquela noite inteira. Ela se acalmou. O tesão deixei para outro dia. Nunca tive pressa com ela. Nunca terei.



 Escrito por Mauro Cassane às 09h52
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O minuto

O minuto, 60 segundos.

O minuto, oh sagrado minuto,

esperado, espremido, indolente.

Te amo, por minuto.

Sinto seu cheiro, no minuto.

Seu calor, sua ternura, sua ira,

sua gostosura, seu charme.

Um minuto, tão efêmero minuto,

cabe agora meu amor sufocado, 

minha loucura, minha poesia,

minha saudade, minha vontade.

Tudo, tudo, tudo, neste louco minuto

que te sinto, que rezo em seu altar

nu, em fantasia, em desesperado

desejo de te abraçar, beijar sua face,

sua boca macia, morder suas costas,

apertar sua bunda, explodir em

tesão, paixão e amor.

No minuto, ah um doce minuto,

nem hora, nem dia, nem semana,

nem mês, nem ano. Apenas

um único fugaz  minuto de ti

me faz assim tão feliz.

Tu és minha droga preferida,

Meu vício incurável.

Esse tênue minuto, meu amor,

é a eternidade que por ora

me ofereces em gotas...



 Escrito por Mauro Cassane às 23h04
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